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Análise BD: Infidel (Image Comics) – Horror Social

Numa época em que se alavanca o consumo de novas BD’s ligadas à temática do Terror em Portugal, nunca é demais sugerir a leitura de obras que tiveram mais recentemente impacto nos EUA e não só.

O Terror da década atual é rico em elementos que se baseiam no quotidiano, na angústia e nos anseios da nossa sociedade, pelo que é difícil ignorar um conjunto de fenómenos que prometem degradar o normal funcionamento das nossas instituições (solidárias, culturais, de saúde e não só) através da paranoia, da indiferença ou da desconfiança — para não mencionar o ódio — que corroem as nossas relações (amiúde tóxicas) e nos conduzem a sérias questões de ordem existencial.

O sentido de alerta quase permanente com que são forçadas a viver as minorias no mundo contemporâneo, mesmo em países tidos como livres e democráticos, levam a que o medo atinja outros patamares, digno de inspirar um elevado número de histórias e contos ilustrados em BD. Subitamente, já deixamos de temer o estranho e o exótico, provenientes de outros mundos (reais, míticos ou imaginários) para ter de lidar com perigos bem próximos que nos são, por demais, familiares. Infidel, mini-série de cinco edições publicada originalmente pela Image Comics em 2018, explora esse conceito e é altamente recomendável.

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Escrita por Pornsak Pichetshote e desenhada por Aaron Campbell, além de contar com as cores de José Villarrubia e parte do design e ilustração de Jeff Powel, Infidel acompanha a história de Aisha, uma mulher muçulmana americana que se muda para um prédio antigo em Nova Iorque após a morte do marido. Mas sobre esse prédio pesa uma maldição. 

Aisha e outros moradores começam a vivenciar fenómenos sobrenaturais perturbadores: Aparições, vozes e comportamentos violentos desencadeados por assombrações. O peculiar em Infidel é que as entidades sobrenaturais se alimentam de preconceito, xenofobia e ódio, especialmente do racismo e da islamofobia. Sem hesitar, os espectros exploram medos, culpas e hostilidades latentes nos moradores do prédio, o que gera pura inquietude.

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Ainda que use convenções clássicas do horror como a assombração, o suspense, o contacto com o desconhecido, ambientes claustrofóbicos e momentos de forte tensão psicológica, Infidel é amplamente reconhecida como uma BD que explora o Horror Social.

O terror não vem apenas do sobrenatural, mas do comportamento humano e das estruturas sociais que normalizam a discriminação e a raiva pela diferença. Inequivocamente, explora um tema contemporâneo que ainda dá origem a múltiplas discussões dentro das designadas sociedades ocidentais, onde o multiculturalismo desencadeia choques e cria sérias cisões que se estendem a conflitos ou discursos mais extremos, onde a perseguição e a violência são realmente contempladas como um método que atentam contra a dignidade do outro — O que não é facilmente aceite por um grupo extenso de indivíduos, a quem os espectros de um prédio noviorquino servem de alegoria.

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A arte de Aaron Campbell proporciona à obra algo de opressivo e fragmentado. O seu traço é relativamente realista na construção dos personagens e ambientes, o que dá à narrativa uma base concreta, mas esse realismo é frequentemente interrompido por distorções visuais. Há sombras que se alongam demais, rostos que se desfazem ou silhuetas quase invisíveis que criando um desconforto constante. As áreas escuras não são apenas ausência de luz, pois parecem engolir o espaço.

A violência estabelece-se como chocante, mas amiúde o terror não está claramente desenhado, mas sugerido dentro do vazio e da escuridão. Campbell foi capaz de gerar uma atmosfera sufocante e um terror psicológico persistente, replicando a força do trauma. Transforma sabiamente o espaço doméstico em algo instável e hostil, alimentando o nível de insegurança.

Isso também se deve a vários enquadramentos claustrofóbicos, a intencionais distorções de perspetiva e à sobreposição de elementos visuais, para não mencionar a representação dos espectros que assombram o prédio, que são figuras quase abstratas, rompendo a dimensão do concreto para surgirem como entidades igualmente distorcidas, algo entre a caricatura e o grotesco.

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O reconhecimento de Infidel nos EUA levou a que vários críticos a considerassem como parte do «Best of 2018» e fosse listada pela NPR (National Public Radio) como uma das histórias entre os «100 Favorite Horror Stories of All Time.»

Em Portugal a BD Infidel ainda não é muito conhecida, mas o seu escritor Pornsak Pichetshote também merece ser referido: Trata-se de um importante editor e produtor que trabalhou para Marvel Comics, de que é exemplo Alien: Black, White & Blood #4, a DC Comics e a Vertigo, incluindo várias histórias de The Swamp Thing, além de outras de alguns super-heróis, e sobretudo em The Sandman Universe: Dead Boy Detectives, tendo contribuído ainda como roteirista para séries de televisão, colaborando em The Arrowverse, na segunda temporada de Marvel’s Cloak & Dagger e Two Sentence Horror Stories.

Além de Infidel, o seu segundo grande projeto foi The Good Asian (2021–2022), uma obra histórica ambientada em 1936 que explora o racismo e a imigração em Chinatown.

Bruno Lourenço

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural

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