BD: A Conspiração – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião
Will Eisner, nascido em Nova Iorque em 1917, faleceu a 3 de Janeiro de 2005. Destacou-se por ser um dos grandes pioneiros da arte gráfica do século XX e por criar a marcante banda desenhada The Spirit, além de lançar o género romance gráfico (graphic novel) com a publicação de Um Contrato com Deus (Contract With God), em 1978.
Em sua justa homenagem, os mais conhecidos prémios anuais de BD receberam o nome «Eisners» e, desde então, o seu nome jamais deixou de ser reconhecido um pouco por todo o mundo. Ativo até ao fim, legou-nos uma obra que foi mesmo concluída no seu último vez de vida, digna de ser reconhecida: Trata-se de The Plot – The Secret Story of the Prtotocols of the Elders of Zion, ou A Conspiração – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião, obra fundamental por ser a única de temática histórica do autor e por destacar os perigos das fraudes e das teorias da conspiração numa época em que deveríamos possuir maior análise crítica e sensibilidade em relação ao fenómeno.
A Conspiração retrata o problema gerado por uma falsidade que nunca deixou de ser publicada e assumida como verdadeira. Propagandeados e distribuídos mundialmente, por diferentes grupos e regimes, os Protocolos dos Sábios de Sião contam com mais de um século de existência. A obra gráfica de Will Eisner explora as suas origens e em que medida são usados para lavagem cerebral, manipulação das massas ou degradação das relações e das diferentes organizações e instituições (sociais, públicas, religiosas, culturais e outras) que são alvo de desconfiança de um elevado número de indivíduos que nunca se deram ao trabalho de investigar e aprofundar a informação que chega até si.
Cedendo à manipulação, ao ódio ou às respostas fáceis, ainda hoje, mesmo contra todas as evidências históricas, provas apresentadas e um elevado número de estudos académicos e opiniões divulgadas por investigadores credíveis, os Protocolos dos Sábios de Sião continuam a promover a existência de uma conspiração judaica para domínio mundial que atenta contra a chamada «civilização cristã.»
Will Eisner recorda que tudo fez parte de um estratagema para desviar as atenções dos problemas do regime do czar da Rússia, orientando o ódio do povo para um outro grupo étnico mais fácil de ser culpabilizado pelos seus próprios problemas — Algo que se verifica ainda nos dias de hoje, um pouco por todo o mundo, através de exemplos diversos derivados de fenómenos populistas que criam sempre os seus inimigos virtuais em grupos minoritários indesejáveis. Os Protocolos são publicados pela primeira vez em 1905 e o sucesso da falsificação, transmitido através de fontes diversas, superou as expectativas.
O que talvez ninguém na época contava é que os Protocolos dos Sábios de Sião estariam destinados a tornar-se a obra de propaganda antissemita mais explorada ao longo do século. Adotada por movimentos extremistas, geralmente nacionalistas, racistas e xenófobos, que incluíram o Partido Nazi, o Ku Klux Klan, dezenas de grupos fascistas e derivados do fundamentalismo islâmico, a publicação dos falsos documentos nunca pareceu estar destinado a morrer.
Perturbado pelo uso perverso e contínuo dos Protocolos, Will Eisner sempre esperou que a obra A Conspiração alcançasse uma audiência diferente e mais vasta, capaz de ler, analisar, refletir e questionar. Optou por fazê-lo através de uma BD enquanto instrumento ético, para não dizer pedagógico, usufruindo de toda a informação e das necessárias bases ou fontes históricas para expor a realidade sobre os riscos gerados por fraudes promovidas por aqueles que nunca olharam a meios para atingir os seus próprios fins. É claro que essas fraudes, historicamente, tiveram consequências nefastas e trágicas para um elevado grupo de indivíduos que continuam a ser alvo de preconceito um pouco por todo o mundo.
A Conspiração foi publicada pela Gradiva em 2005 e continua a ser uma obra apetecível e recomendada na era das Fake News, contando com uma segunda edição de 2019. Trata-se de uma publicação com mais de 140 páginas de capa mole, contando com uma introdução de Umberto Eco.
O estilo dos desenhos de Eisner, a preto e branco, são expressivos e próximos da caricatura. Esse estilo apresenta-se como uma alegoria social onde os ambientes reconhecidos pelos jogos de sombra entre fortes contrastes também expressam a histeria coletiva e a manipulação a que inúmeras personagens estão sujeitas, quando não expõem o clima conspiratório. A tradução é de Gonçalo Terra, que contou com a revisão de texto por Helena Ramos, além do apoio do editor Guilherme Valente.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural






