Um olhar sobre “Nameless” de Grant Morrison e Chris Burnham
Enquanto cresce o debate sobre as melhores histórias de Grant Morrison, que tem vindo a ser destacado em Portugal como escritor da mais recente série de álbuns de Batman publicadas pela Devir, não há nada como recomendar uma das mais notáveis BD’s escritas pelo autor. Nameless conta com a colaboração entre Morrison e o artista Chris Burnham (que já haviam trabalhado juntos em Batman Incorporeted, da DC Comics).
Nameless foi publicada pela Image Comics em 2015 através de 6 edições e, como o título indica, Nameless ou «Sem Nome» explora o mistério ou o incógnito que também representa o próprio protagonista, um ocultista que pretende evitar ser nomeado. Essa escolha exprime alguns princípios filosóficos próprios do mundo esotérico, que inspiraram tanto Grant Morrison como Chris Burnham, em correspondência com preceitos niilistas.
A ausência de nome é um reflexo do ausente e do inominável, que perspetiva maior poder já que simboliza o desconhecido que não pode ser facilmente atingido por qualquer ameaça. O título Nameless antevê essa conceção através de uma personagem, mas o tributo é mais extenso.
A título de exemplo, Aleister Crowley, através de textos presentes no Liber AL vel Legis (Livro da Lei) e em A Visão e a Voz (The Vision and the Voice Liber 418), frequentemente trata do Inefável ou do Sem Nome em termos simbólicos. Mais que o conceito hermético e cabalístico do Ain (o Nada) e do Ain Soph (o Ilimitado), Crowley descreve «Nuit é o círculo infinito cujo centro é em toda parte e a circunferência em parte alguma» ((Liber AL I:46) — a deusa Nuit é o sem-nome feminino cósmico, o espaço ilimitado.
Também refere «Nada é um nome secreto da Estrela» (Liber Al I:46) — Aqui, o «Nada» (Nothing) é literalmente uma designação do sem nome ou o Naught, o ponto zero que contém o Todo. Podemos acrescentar que um «Não-Nome» segundo Crowley indica uma realidade pré-conceptual, anterior ao uso da linguagem, como algo próprio do mistério que antecede a criação.
Mais do que uma obra inquietante de ficção científica, Nameless foca-se numa experiência de carácter ritualista, carregada de simbologia, através de uma narrativa fragmentada e alucinatória, digna de desorientar qualquer leitor menos atento. Expõe a completa fragilidade da mente humana ante o desconhecido e explora conceitos que não só servem de homenagem à obra de Lovecraft como a diversas tradições esotéricas.
O que distingue a BD de outras histórias tipicamente lovecraftenianas é que os autores rasgam plenamente o universo de Cthulhu Mythos explorando uma dimensão e mitologia alternativas. Ainda assim, Nameless procura homenagear o ocultista Kenneth Grant (1924 – 2011) e a tradição Typhoniana, fazendo eco das vias anti-cósmicas da Qabalah — incluindo os Qliphoth e as travessias pelos «Túneis de Seth» — através de uma demanda espacial até um asteroide cujos elementos se referem também à mitologia maia e polinésia. Não é por acaso que o asteroide em rota de colisão com a Terra é referido como Xibalba: O «Lugar do Terror» que é o submundo infernal e reino dos mortos segundo os maias.
É a aproximação do asteroide Xibalba que desencadeia toda uma série de trágicos e violentos eventos que dão origem à história. A narrativa entra em conflito desenfreado com outros interlúdios elaborados como se cada virar de página nos permitisse remover o véu que serve de fronteira com que o entendemos ser real ou um pesadelo de proporções surreais e metafísicas.
Xibalba oculta o maior dos segredos que se pode apenas traduzir como a maior ameaça à existência já vista. Serve de prisão a algo que, de uma forma ou tanto irónica ou absolutamente provocadora, é capaz de controlar e comprometer a mente de todos. É um eco cósmico do potencial para todas as formas de violência e devastação reconhecidos através do designado «Universo B» correspondente com a chamada Árvore da Morte, oposta à Árvore da Vida segundo a tradição cabalística.
Não é inusitado que surjam palavras e mensagens em enoquiano, expondo o idioma dos arcanjos segundo o que foi reconhecido pelo ocultista John Dee. É que Xibalba anuncia um evento apocalíptico que promete mergulhar o nosso mundo num horror difícil de ser descrito ou enunciado.
Nameless obedece assim a uma expectativa clara, coerente com os preceitos do cosmicismo, que nos afasta de qualquer ideia de salvação. Nada é o que parece ser nesta aventura desumana carregada de horrores. Força-nos a reconhecer que não há a menor esperança para lidar com um flagelo maior que a Humanidade alguma vez seria capaz de conceber.
Audaz e criativo, Grant Morrison lega-nos através de Nameless algo que também os fãs portugueses deveriam ler. A sua tradução e publicação em Portugal seria desejável, contrastando com o que já conhecemos em termos de terror ou até mesmo de lovecrafteniano.
Já o artista Chris Burnham, expressivo e minucioso, detém uma arte marcante e inconfundível que, através desta história, revela algo visualmente denso, dado ao grotesco, com elementos viscerais, que, mediante cada cenário, expõe uma certa dose de caos ou insanidade coerente com as visões alucinadas de alguém pronto a interpretar com mestria a sensação de confinamento, perdição, dissociação com o real, possessão ou a paranoia a que todas as personagens estão sujeitas. Burnham não se esquiva de mostrar o horror físico e psicológico através de desenhos carregadores e de cores fortes, em que o gore também é praticamente ritualista, carregado de simbolismo esotérico.
Para quem deseja ler algo de distinto, em matéria de Horror, Nameless é fortemente recomendado. A parceria entre Grant Morrison e Chris Burnham resultou numa obra impressionante, digna de apreço por todos os que apreciam tanto o exótico e o oculto combinados com o que há de mais aterrador no campo da ficção científica. Certamente, com esta história intrigante, para não dizer extraordinária, não ficarão desapontados.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





