Spawn, o Vigilante Infernal
A história de Spawn está intimamente ligada à carreira de sucesso de Todd McFarlane (n. 1961), artista canadiano que marcou a banda desenhada da Marvel Comics no final dos anos 80 do século passado.
Foi sobretudo através do Homem-Aranha (como se nota no distinto Amazing Spider-Man #298) que desenhou com um estilo inconfundível, dando ao super-herói uma aparência mais atlética, ágil e acrobática, que acompanha um maior dinamismo nas suas páginas, incluindo olhos maiores e mais expressivos da máscara e teias de aranha mais orgânicas e detalhadas, que Todd McFarlane revolucionou uma das revistas mais rentáveis da editora.
Graças ao criador, um dos números da revista, Spider-Man #1, chegou a vender mais de 2,5 milhões de cópias durante o início dos anos 90, algo até então inédito.

Apesar do sucesso, Todd McFarlane estava insatisfeito e decidiu criar a sua própria editora em 1992, fundando a Image Comics. Foi a partir daí que se dedicou a Spawn, um dos títulos de lançamento da editora.
Spawn é um vigilante que detém as características de anti-herói, ainda que a partir de determinada altura estabeleça a sua própria cruzada contra as forças do mal.
Podemos reconhecer nesta personagem as influências de outras do mundo da BD como o vilão Venom (no qual Todd McFarlane trabalhou, sendo reconhecido como um dos seus co-criadores, já que estabeleceu o visual definitivo da personagem), que pesou no design do fato simbiótico que utiliza, o Motoqueiro Fantasma, por Spawn também ter estabelecido um pacto com as forças do Inferno, Batman, por ser um vigilante noturno e deter um lado sombrio, além de Doutor Estranho, por usar uma capa que relembra a do Feiticeiro Supremo do universo Marvel, John Constantine (Hellblazer) a nível de relação com o sobrenatural e Frank Castle (Punisher) no que toca à personalidade, que ignora a ética típica dos super-heróis.

Spawn está longe de ser um vigilante de aparência cordial e moderado, já que o seu lado intimidador e violento sobressaem, agindo como um assassino brutal, mesmo que procure a redenção por alguns dos seus crimes. A sua história é marcante, digna de se adaptar a um mundo opressor e corrupto, onde as forças da ordem e do caos, ou da ordem divina e infernais, lutam eternamente.
Spawn é na verdade Al Simmons, um ex-agente da CIA altamente treinado. Foi usado, traído por seus superiores e assassinado. Após a morte, vai parar no Inferno onde faz um pacto com um demónio chamado Malebolgia: Em troca de poder e a chance de ver a sua esposa novamente, ele concorda em se tornar um dos generais do exército infernal, um Hellspawn.
No entanto, quando retorna à Terra, Al Simmons descobre que se passaram cinco anos desde sua morte. A sua esposa, Wanda Blake, casou-se com o seu melhor amigo, Terry Fitzgerald, e teve uma filha com ele. Pior ainda, ele está desfigurado e com amnésia parcial, vestindo um traje simbiótico (com vida própria) que lhe dá poderes sobrenaturais.
Ao longo da sua história, Spawn enfrenta não apenas demónios e anjos, mas também criminosos, outras entidades sobrenaturais e dilemas morais intensos. Com o tempo, tenta se libertar tanto do controle do Inferno quanto do Céu, buscando o seu próprio caminho como uma espécie de anti-herói sombrio, um vigilante infernal dotado de poderes sobrenaturais, incluindo teletransporte, auto-regeneração, manipulação de energia e controle das sombras.
A revista Spawn foi um enorme sucesso nos anos 90, vendendo 1,7 milhão de cópias da primeira edição, um recorde para uma editora independente. Contou com uma série animada premiada da HBO (1997–1999) e um filme live-action em 1997 (com Michael Jai White como Spawn).
Com um lado cultural assinalável, que marcou sobretudo uma geração ávida de leitura de banda desenhada com um teor mais sombrio e cínico que caracterizou algumas das histórias de ficção do final do século XX (aliadas do mundo gótico e numa maior descrença em relação à sociedade) onde pesam abordagens mais adultas e extremas, Spawn tornou-se representativo de uma época. O Inferno deixou de ser um lugar estranho.
Os demónios detém diferentes estatutos no mundo da BD e parece que já não é possível deixar de co-existir com a sua influência e a relação com os super-heróis clássicos (até o Homem-Aranha acabaria por estabelecer um pacto com Mephisto, o que revolucionou de vez a sua história, rompendo o seu casamento com Mary Jane.)
Todd McFarlane tem vindo durante os últimos anos a anunciar os planos para um novo filme de Spawn, sendo expectável o reboot para breve, potencialmente mais sombrio do que o dos anos 90 e voltado para o terror psicológico, segundo o criador. É certo que Spawn necessita de revitalização e de voltar a ser redescoberto ou conhecido por novas gerações. Mas voltará a deter a mesma atenção e sucesso?

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural




Muito bom texto. Uma pena o título do Spawn não ser um daqueles que a Panini envia para as nossas bancas.