Encontrar Henrik Ibsen, em 2020!

John Gabriel Borkman é uma peça de teatro escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, em 1896. O Central Comics leu recentemente o livro. Retornar aos clássicos para falar do futuro.

Como o ar da noite se torna pesado quando confrontado com a leveza dos nossos dias.

John Gabriel Borkman sonhava com a morte enquanto estava no céu. No seu segundo andar achava-se já mumificado, não reagia aos cadáveres que provocara antes de subir.
“Cara ou coroa?” – Desta expressão amigável nasce este drama. Somos confrontados com jogos de tabuleiro numa sala fechada em que somos fumadores passivos.

Ella Rentheim era o prémio que Borkman ansiava nos seus tempos áureos, Gunhild Borkman foi o que lhe calhou quando dividiu as apostas com um amigo.

Nesta obra fala-se de como a passagem do tempo é rápida e estreita para quem enche os bolsos de saudades. Uma família é apresentada, com pisaduras ainda das correntes do passado, cada um deles com um objetivo.

Ella procura uma cura, não para a doença, mas para o coração. Gunhild ambiciona ter, definitivamente afirmar que possui alguém inteiramente a lucrar a tempo inteiro. Erhart, o filho do lobisomem, quer festejar pela noite fria. Já John Gabriel deseja transformar-se de facto no Deus Ex Machina de que tanto se intitula.
Desce à neve para resolver problemas, coser situações por remendar… Isto ao seu passo claro.
Erhart seria, sem dúvida, o herói mais prometedor, contudo as horas e segundos passam por ele, o mesmo não as mira, quer viver e ser vivido pelos ponteiros.

Tem maus exemplos em casa, aprendeu a lição mais importante: Não parar para não congelar.

Arrisco escrever que Ibsen promove a psicologia por detrás dos prazos, e como isso afeta o ser humano, como isso o faz perdurar ou penetrar em si de tal modo que deixa de contar os momentos para petrificá-los numa estante, em que só pousam sombras e gatos pretos.
As pessoas e os seus fracassos são gritos abafados nesta peça elegante pelo que não é dito, pelo que fica nas entrelinhas de um discurso sonante, mas sem folgo. Uma contenção que fere.

A deadline aproxima-se para estas personagens! Já não se lembram bem dos seus rostos, estão mudadas, diferentes, desesperadas pelo esquecimento total – a única forma de saldar a dívida… enclausurar as memórias lá longe.
“Time gives before it takes”, assim o diz Lewis Carroll em Alice.
A temática da duração das coisas está presente neste texto, a época em que ganhamos, a época em que somos grandes e continuamos a crescer e finalmente a época em que permanecemos grandes numa sala pequena e arrepiada pelos ventos de leste.

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A ideia de que somos uns oportunistas na estabilidade e uns egoístas grandiosos na incerteza. Tiramos pedaços a cada um, o autor toma o dinheiro como o plot fundador para depois aceder às bases de espírito.
Ninguém quer ficar só em frente ao cronómetro.
John Gabriel não abandona o seu palácio porque ouve as vozes na cave, sabe que o testemunham.

Leio o instante em que o mesmo refere que Ella é a última da sua família não só como uma opção no sentido da narrativa, mas também com o intuito de alertar no cômputo geral, que qualquer um de nós acaba por ser sempre o último de si mesmo.
A imortalidade troca as voltas ao período de vida por isso soa bem.

Permite que tanto os sucessos como os fiascos sejam olvidados rapidamente, já que temos realmente todo o tempo do mundo ao nosso dispor. Não julgo ser por acaso que esta peça tenha como cenário uma conjuntura invernosa….

A vida de Borkman acelerou muito nos seus primórdios, mas arrefeceu e a sua respiração foi enfeitiçada pelo som dos ferros que o cumprimentaram no início e se despedirem com um aperto de mão no fim.

Um passou-bem gelado.

Eterno.

As gémeas unem-se, viram “duas sombras sobre um cadáver”, existe uma partilha espacial neste triângulo amoroso. O gelo retira-lhes os inchaços das amarras, são livres a buscarem a vontade de registar tudo o que foram e serão na paisagem assombrada daquele inverno persistente e duradouro por quem o constrói.

Na reta final desta trama vemos o limbo, três figuras colocam-se à margem do precipício, aquele banco velho onde se deixam estar é o bastante para, felizmente nas suas ambições, tornarem-se coisas sem valor, esquecidas, and at last but not least, perdoadas.

O que sobrou delas fugiu, um legado que não é de ninguém, há de ser achado ou perdido quando a primavera despertar.

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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