Crítica – “Especiais” – Liberté, égalité, fraternité

“Especiais” (Liberté, égalité, fraternité), é uma longa-metragem da dupla francesa Eric Toledano e Olivier Nakache (“Intocáveis”), que encerrou, em 2019, o Festival de Cannes e que estreia a 27 de Fevereiro.

O ator Vincent Cassel é Bruno, o fundador e o coração de uma associação que cuida de jovens autistas que não se encaixam em mais nenhuma instituição estatal. Esta personagem é inspirada em Stephane Benhamou. “Eu encontro uma solução” é o seu lema durante o filme- É segundo este motto que com os seus colegas e voluntários recrutados, instiga o achado de uma utopia concreta de respeito mútuo e boa vontade geral.

Bruno como judeu que é, veste um quipá quando não está com o seu boné de beisebol, e é amigo de Malik (Reda Kateb), a figura fictícia que representa Daoud Tatou, cuja associação trabalha com a educação e reinserção profissional para jovens de origens difíceis. Os dois amigos combinam as suas organizações como meio de acelerar processos e de oferecer tratamentos mais capazes monetariamente e localmente – Dois órgãos, um dirigido por um muçulmano e outro por um judeu, ambos alertas ao facto do autismo severo ser rejeitado pelo sistema francês.

“Especiais” é um filme raro que com realidades consistentes. Não criadas para suportar e aconchegar o espectador no cinema, executa uma palestra teórico-prática decidida que o “deixar acontecer” é um vírus da democracia quando lidamos com os mais fracos e subalternos. Esta película é uma mistura potente que permite o acesso a assuntos ocultos ou esquecidos por um público culpado desse lapso, porém acolhido com graça e humor numa análise aos compassos dos efeitos e ritmos que fazemos quando os nossos se misturam com o outro diferente de nós na dança que é a vida.

Toledano e Nakache têm a maturidade e o sucesso como cineastas para atacar este material difícil com um toque tipicamente leve – informação coerente e precisão no desenvolvimento das personagens ajuda a abordar o assunto difícil. Vemos um elenco sólido, um misto de profissionais e não profissionais, incluindo algumas pessoas que sofrem efetivamente de autismo. A música desempenha um papel importante, identifica suavemente alguns impressionantes planos de montagem que adoçam e salpicam por alguns minutos o ambiente e a atmosfera transformadora que vai crescendo e instalando-se nas ações e cores do filme.

  Greenland, com Gerard Butler, já tem trailer e póster

A adversidade que salta é o balanço e tempo de cena/história individual que não existe para Malik em comparação a Bruno, uma vez que este último se revela mais protagonista do que o planeado. Estas fragilidades aumentam com a falta de categoria e categorização dada aos inspetores (Frederic Pierrot, Suliane Brahim) que vêm em nome da agência estatal IGAS (L’Inspection generale des affaires sociales), os supostos “vilões”, obstáculos da narrativa não usufruem de um close up suficiente que contribua para a verdadeira glorificação de quem ultrapassa essas barreiras e de quem as concebe.

Esta oferta de irrelevância ao que é relevante retira um brilho mais notório à estrutura deste filme, fica árduo, divagador e repetitivo, desliza pela superfície da história que conta em vez de destapar todas as faces.

O conflito necessário ao jogo dramático vai assim desvanecendo e resume-se a ser simplesmente apresentado, faltam os complementos viciantes que fixam o auditório.

Em suma, ainda que não haja reviravoltas na trama ou sofisticação na técnica da exposição. A mensagem sozinha, é por si muito poderosa, apesar da sua previsibilidade. Consigo adicionar da minha memória uns bons momentos equilibrados, cápsulas carregadas da magia da hilaridade e do drama junto com a maldade inocente de gerações que, agora atualizadas, se pontificam a negar a perfeição, preferem optar pela especialidade que é saber receber o outro, o filme permanece no fim como uma obra inacabada, contudo capaz de oferecer ferramentas.

Nota final: 7/10

 

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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