Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Crítica BD – “Os Escorpiões do Deserto” (Vol.3)

Este volume 3 de “Os Escorpiões do Deserto”, intitulado de Brisa de Mar, é especial, não só pela sua narrativa, não só pela sua veracidade, mas também pelo facto de ser uma história inédita em Portugal.

A Ala dos Livros edita assim 5 célebres jornadas em 3 maravilhosos livros de BD.

O compositor destas belas sinfonias, é Hugo Pratt, cujo legado é eterno, as suas criações estão expostas em conceituados museus, do Grand Palais à Pinacothèque de Paris, passando pelo Vittoriano em Rome, o Ca’ Pesaro em Venise ou o Santa Maria della Scala, em Siena. Os seus grafismos e as suas palavras criaram um estilo único, inclusive deram novas perspetivas à produção de BD em relação com outras artes, Pratt é citado por autores e artistas como Tim Burton, Frank Miller, Woody Allen, Umberto Eco, etc.

Graças às viagens e espírito aventureiro de Hugo Pratt, podemos ler e ver “Os Escorpiões do Deserto”, as vidas e lutas da seção especial do exército britânico em África, durante a Segunda Guerra Mundial, esta unidade especial vigiava os movimentos das linhas inimigas, oferecendo informação valiosa aos aliados contra os regimes fascistas da Alemanha e da Itália.

Este título fascina sempre pelo seu ritmo avassalador, seja na apresentação das relações, seja pelas disputas emocionas, porque não é só um território que se desbrava, são primeiros contactos humanos, primeiras confianças ou primeiras traições e , acima de tudo, a batalha mental e corporal da persistência de valores. Românticos talvez, sim, porém não menos importantes para a resolução dos conflitos.

Tudo é político, essa é a génese desta obra, contudo as personagens, ainda que dentro de um jogo sádico, não são obrigadas a responder dessa mesma forma, até surpreendem pela apresentação que delas é feita. Pratt ilustra os pequenos detalhes, as pequenas coisas, que no final dia, são o que permanece.

Desde figuras como Koinsky que pretende chegar a Dire Dawa, Brezza que quer regressar ao seu bordel, Modena, o soldado italiano que só quer sobreviver, até Ghula e a sua sede por vingança… Muitas são as características e manias desta grupeta, podemos dizer que tudo se resume a objetivos do foro pessoal, mas desenganem-se a entreajuda é palpável. O caminho do herói precisa e anseia por sidekicks. No entanto, cabe a cada um de nós escolher caminhos e dar resposta, quanto a isso, Hugo Pratt não é ingénuo, e descreve essa dimensão magistralmente.

Sometimes you need to go alone

Relativamente ao traço, é como já nos habituamos, simples, de linhas finas, contando com o rosto e movimento do enredo, assim como com as paisagens áridas e desérticas, típicas da região do Egito. É uma forma original de representar o horizonte, e quem atua sobre ele, povos em guerra, povos confusos com o futuro. É pela eficácia destes desenhos descomplicados, que “Os Escorpiões do Deserto”, se torna tremendamente sensível e poético.

Tal como nas edições anteriores, este volume está a preto e branco, sendo apenas os dossiês com as aguarelas do autor coloridos.

O mestre italiano fez, portanto, um bom trabalho, o único ponto a que me oponho é a extensão dos diálogos, muitas vezes há a necessidade de deixar os silêncios falarem, de estremecer o leitor com o inesperado e, infelizmente isso acontece pouco nesta obra. As influências românticas de Hugo Pratt terão sido certamente as “culpadas” por esta opção. O texto já começa antes da palavra e, na minha opinião, é preciso também escutar essa conversa.

Para os interessados, informo que a série “Os Escorpiões do Deserto” tem mais 2 episódios de outros autores – por Pierre Wazem em 2005 e por Giuseppe Camuncoli e Matteo Casali em 2007.

Autor: Hugo Pratt
Ilustração: Hugo Pratt
Género: Banda Desenhada, Romance Histórico
Editora: Ala dos Livros

Argumento: 8
Arte: 8
Legendagem: 7
Veredito final: 8

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *