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Crítica BD – “Armazém Central – Marie”

A série Armazém Central da editora belga Casterman, agora em Portugal graças à excelente iniciativa da Arte de Autor, foi escrita e desenhada por Régis Loisel e Jean-Louis Tripp, decorre numa aldeia rural poeirenta e perdida na imensidão do Quebeque, nos anos 20 do século XX.

Neste primeiro título da série, o leitor cruza-se com as rotinas dos habitantes de Notre-Dame-des-Lacs, com especial foco em Marie Ducharme, uma mulher cuja vida sofre um inesperado sobressalto quando o seu marido, Félix, morre e deixa-lhe a única loja de bens essências – O Armazém Central.

A normalidade é virada do avesso e, de repente, a aldeia simples e pacata transforma-se numa comuna de debates e protestos face ao futuro incerto.

Sem as ferramentas para a agricultura, para a caça e para o consumo, o progresso é adiado e a idade da pedra aproxima-se… Assim, Marie, vê-se obrigada a atuar de imediato, sem tempo para o luto, sem tempo para delinear planos, tem de agir!

A loja, Armazém Central permanece e persiste, pelas mãos de uma protagonista e dos seus amigos que se emancipam com ela – é precisamente aqui que esta obra inova e surpreende, seja pela pura e dura humanidade nas palavras, nos rostos, seja pela beleza da independência, a autonomia de um povoado de gente que se une para cantar o hino, mas que, simultaneamente, defende os seus próprios ideais e casmurrices.  

O tempo não é estável, não podemos ser saudáveis sem arriscar, esta BD comunica por esses temas que brincam com o fogo, a galeria de personagens que ficamos a conhecer não mente, prova-se uma autenticidade nas suas histórias, instintivamente o leitor ouve nas entrelinhas: somos uns amadores na vida, mas não somos menos amados por ela.

A exuberância não tem lugar nesta criação, quer no plano argumentativo, quer no plano visual, a estrutura e a estética da mesma guarda as suas riquezas nas emoções, nas personalidades e nos tons dos ambientes ilustrados. Sentimos o conforto do pastel nos quadros, que se alia muito bem aos traços mais generosos das figuras e que comunica perfeitamente com a luminosidade sensível dos cenários.

“Armazém Central – Marie”, é um início, é onde tudo começa, contudo, essas existências já eram verdadeiras antes de as lermos, o enredo do livro não nasce para nós, aliás pelo contrário, nós é que nascemos exclusivamente para ele. Esta série é quase o ABC da vida humana, as perdas, as arrogâncias, as intolerâncias e as alegrias, os encontros, os abraços… Sentimentos que se confundem num “Olá” e num “Adeus”.

Jean-Louis Tripp, ilustrador, argumentista e colorista publicou as suas primeiras pranchas na Métal Hurlant em 1977. Após três títulos na Futuropolis com Marc Barcelo, lança na MIilan a série Jacques Gallard. A partir de 1990, inicia um período de criação devoto ao design, escultura, pintura, reportagens de desenho e literatura juvenil. Em 2003, desenha Paroles d’anges, começando em 2006, com Régis Loisel, o longo romance gráfico Magasin Général. Desde 2015, reparte o seu tempo entre Paris e Montreal.

Régis Loisel, argumentista, ilustrador e colorista, é a partir do início da década de 80 que a sua carreira descola com a série La Quête de l’oiseau du temps (Dargaud), com argumento de Serge Le Tendre. Colaborou em várias longas-metragens de animação e foi reconhecido em 2003 pelo Grande Prémio da Cidade de Angoulême. Em 2006, lança Magasin Général (Casterman) com Jean-Louis Tripp. Reside em Montreal.

Autores: Régis Loisel, Jean-Louis Tripp
Ilustração: Régis Loisel, Jean-Louis Tripp
Género: Banda Desenhada, Romance
Editora: Arte de Autor
Argumento: 9
Arte: 9
Legendagem: 9
Veredito final: 9

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