Cinema: Crítica – O Bosque de Blair Witch (2016)

Blair Witch é uma mentira.

Pelo menos foi esta a mensagem que nos foi deixada pela muito odiada sequela do aclamado Joe Berlinger – que conseguiu tirar tudo o que o original tinha de bom e fazer a troca por personagens irritantes e uma faixa dos Nickelback na banda sonora (algo que pode ser mais assustador do que qualquer bruxa nos bosques). [fbshare]

bw-sg1Se o original representa uma das peças mais originais (embora Cannibal Holocaust tenha sido o pioneiro em found footage) e perturbadoras do género – com direito a uma inovadora campanha viral que mudou a maneira de vender filmes – a sequela ficou com a sorte de ser o equivalente a um brinquedo esquecido num cesto do Happy Meal.

Ground zero perfeito para a dupla de Adam Wingard e Simon Barrett ressuscitarem a série dos mortos com este Blair Witch (a tentar quebrar o record das muitas adaptações de Invasion of the Body Snatchers em combinação de títulos) – filmado em segredo como The Woods.

James (James Allen McCune) descobre um vídeo que indica que a sua irmã Heather, desaparecida em 1994, poderá ainda estar nos bosques de Burkittsville.

Com um grupo de amigos e locais, James parte à procura da sua irmã, mas rapidamente percebe que acabou de entrar no seu pior pesadelo.

Um elo de ligação ao original é bem-vindo, mas que acaba por ser tanto uma benção como uma maldição. 2/3 do filme são passados basicamente a re-criar o primeiro filme e embora exista um twist ou outro, a sensação de déja vu invade-nos por completo.

Claro que aqui há uma maior conta bancária para explorar, mas ao menos que achem tendas a serem sugadas assustadoras, a grande parte destes bosques já foram explorados em 1999.

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Há espaço para novidades? Sim! Especialmente no departamento de body horror, onde Wingard e Barrett deixam fluir as suas veias Cronenbergianas onde correm feridas inesperadas e líquidos indesejados.

E atenção, por dizer que em The Blair Witch Project estes elementos estavam mais efectivos, não quero tirar o rugido de leão que este próprio filme tem dentro de si. Não, nada disso. Esta dupla sabe nos assustar e dou-lhes aqui a honra de me terem apresentado uns dos últimos 30 minutos mais loucos e estupidamente intensos que vivi numa sala de cinema.

Com a oportunidade de explorar a mítica casa final, “Wingbarrett” (um novo nome para simplificar as coisas) leva-nos à mais infíma e sufocante das passagens, passando ainda pelos degradantes e labirínticos corredores. Uma impressionante peça de set design e uma curiosa expansão ao mythos do primeiro filme – o click definitivo da peça do puzzle!

Não, não é tão sólido como um You’re Next ou pulsante como um The Guest – mas recupera o estilo found footage do primeiro filme e muito provavelmente, fez-me ter três ataques cardíacos nos seus humildes 82 minutos.

Não, também não é perfeito, nem original até à medula (viver com a pressão do original não é o mais fácil), mas posso dizer que é uma sequela digna. A verdadeira sequela. A única sequela ao êxito inesperado que pegou fogo no final dos anos 90.

Uma viagem a tomar, mesmo para quem conhece este trilho.

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Tiago Laranjo

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