Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Análise – “Preparations to Be Together for an Unknown Period of Time” [Fantasporto]

Uma neurocirurgiã preocupa-se que a sua recente paixão não passe de uma descarga de consciência, uma lufada de imaginação numa vida, até agora, coerente. A realizadora Lili Horvát, reconhecida por “The Wednesday Child” (2015), sensualmente constrói um drama psicológico.

Alerta-se os espectadores de enigmas e borboletas no estômago!

Com um título já suficientemente denso, “Preparations to Be Together for an Unknown Period of Time”, é um conto de fadas ao avesso, duelos entre a memória, o amor e a vida são constantes nesta história.

Márta Vizy (Natasa Stork), é uma personagem carismática, capaz de carregar estas temáticas que navegam entre o paranormal e a realidade. Depois de encontrar, quem suspeita ser a sua alma gémea, János Drexler (Viktor Bodó) numa conferência de medicina, a mesma torna-se quase obcecada por uma cadeia de eventos e de encontros futuros. Assim, decide mudar-se dos Estados Unidos para o Budapeste, porém János não comparece no meet de ambos, e quando se cruzam, este parece não se lembrar e até recusa qualquer tipo de reconhecimento anterior relativo a Márta.

A plateia divide-se entre a pretensão, a mentira e o fingimento… A farsa e a realidade.

Este filme húngaro explora os submundos, as alternativas que o inconsciente oferta, transcreve as palavras de Sylvia Plath:

 I think I made you up inside my head

Ou então, fora de suposições ou peças, como reflete o psiquiatra (Péter Tóth) da nossa protagonista, a verdade é mais assustadora… Talvez o seu amado não passe de um impostor egoísta, que a usou quando lhe convinha, para depois a descartar.

Este diagnóstico parece resolver a questão. Não havia, nem nunca houve nada de especial entre os dois. Apenas desejo e luxúria.

Mas, o tempo passa, e talvez enrole demais, subverta dúvidas, que eram básicas desde o início. Os planos de filmagem utilizados, os olhares, e os caminhares que o par principal partilha, desmentem esta versão negativista do filme.

É nesta elasticidade dos factos que, “Preparations to Be Together for an Unknown Period of Time”, é tão singular. A fotografia do filme é distinta no que toca à separação e reunião destes elementos de conexão entre o enredo.

Os ritmos do filme são calmos, demasiado estáveis, para uma hipotética história de amor. No entanto, é a partir destes elementos irreverentes que a longa-metragem cresce e ganha forma.

O público acompanha sempre o ponto de vista de Márta, por isso o território nunca é claro, só temos acesso a um estado mental, a uma justificação. É um desafio fechado em si próprio, privado.

Devemos, então, ser calculistas? Descartar os devidos equipamentos de investigação e presumir que, com base numa ideia, alcançamos todas as respostas? Trata-se de um melodrama!

Contudo, é natural, é humano, “Preparations to Be Together for an Unknown Period of Time”, vem reafirmar que o amor é patológico, e que nós somos os seus doentes crónicos.

Esta obra fez parte da seleção do 41º Fantasporto, sendo galardoado com o Prémio Melhor Filme Semana dos Realizadores, e com o Prémio de Melhor Atriz para Natasa Stork.

Nota final: 8/10

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *