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Análise: “Speaking Simulator” – Um jogo que arruína ou sublinha a natureza humana?

No jogo Speaking Simulator experimentamos estar na pele de um androide que tenta passar-se por um humano perfeitamente normal enquanto que, na realidade, explora formas de conquistar o planeta terra. Desde cedo o jogador percebe que estes planos grandiosos ficam aquém das capacidades técnicas do robô que controlamos, sendo que dominar a língua e manter todos os dentes que temos na boca se revela uma tarefa árdua.

Este processo de expansão de contactos e integração na sociedade humana exige a dicção e o saber estar de uma normalidade a que nos habituamos, é através das quedas gramaticais da nossa personagem que começamos a simpatizar com a mesma e chegamos à conclusão que somos todos igualmente uns novatos no que toca à etiqueta extrema, coisa chata que a ansiedade diária muitas vezes nos impõe.  O primeiro nível do videojogo é reflexo disso, já que a nossa co-worker Karen está mais concentrada na sua postura infalível do que propriamente no colega de trabalho com que está a fraternizar no restaurante, já que quando os olhos saltam das órbitas, as orelhas se separam do rosto e o nariz descai, nada parece alertar a mesma. Não consegue captar as literais faíscas elétricas e metafóricas que a pessoa à sua frente lhe está, sem querer, a lançar.

Claro que esta simbiose de comportamentos dos nossos convivas só aguçam o humor do jogo. Em vez de problematizar o erro, Speaking Simulator descomplica a rotina, dissecando o sentimento de exclusão associado às deformações individuais em relação ao coletivo. A falha é o movimento criador deste jogo, o agente de possibilidades infinitas e capacidades surpreendentes. Dá foco ao feito complicado que realizamos todos os dias sem pensar (gerir a boca e parecermos compreensivos e claros nas palavras e nas emoções) conjugar o ato físico e o social.

Cruzamo-nos com comandos complexos para o jogador como a filmagem interna da boca em que é necessário chegar com a língua aos pontos que se vão acendendo ao longo do discurso, em simultâneo é preciso uma alta cautela entre sorrir, fechar e abrir a boca com o rato, uma vez que temos encontros repetidos com uma banana, que insiste em ser o nosso alimento de eleição.

À medida que ia conhecendo o jogo vi como a maior parte das pessoas não considera o quão difícil seria aprender a falar do zero, ainda para mais numa figura desenhada como o protótipo do futuro, pronto a resolver todas as maleitas, ora não é bem assim, live and learn as they say… a este androide ainda faltam alguns “danoninhos” e muita, muita interação improvisada. O jogador completa isso através de uma variedade de desafios crescentes, como liderar funcionários, socializar numa discoteca e dar um elogio num funeral. É essa a missão deste jogo estranhamente belo, prestes a aterrar no PC e Nintendo Switch para já.

Jed Dawson e Jordan Comino compõem a Affable Games, um estúdio de desenvolvimento de jogos baseado em Brisbane, na Austrália, os dois trabalham no Speaking Simulator desde o início de 2018, baseando-se nos seus alunos que distorciam as faces das personagens quando tinham que atuar com a cara das pobres.

Este simulador é classificado como um jogo de comédia, física e rítmica, e está na rota para se tornar uma adição única e atraente ao crescente número de jogos deste género. No computo geral, Speaking Simulator é puro entretenimento, porém não se deixa ficar por essa camada mais soft e superficial, partilha o absurdo e o grotesco como potencialidades de aprendizagem e descoberta, é uma explosão que podemos atalhar ou abraçar.

Nota final: 7/10

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