Análise – “Os Escorpiões do Deserto” (Vol.2) – Limites limitados

Do italiano Hugo Pratt, um dos maiores autores de banda desenhada do mundo, responsável por obras como “Corto Maltese”, chegou às livrarias esta bela edição de “Os Escorpiões do Deserto” – Vol. 2, pela Ala dos Livros, como comemoração dos 50 anos desta obra.

A aventura decorre nos desertos africanos durante a II Guerra Mundial. Felizmente não se reparte entre as típicas fações e lições teológicas e morais de que estamos habituados, quando se fala de capítulos negros da História Humana – reside precisamente na camada espiritual e intuitiva do homem, que diante de horrores e calamidades conhece o hediondo que é jogar à apanhada com armas – brincar com a irracionalidade.  

Estas esferas são, com grande mestria estética, expostas ao leitor, achamos um traço realista relacionando-se com ambientes reconfortantes e austeros. O deserto não constrói apenas castelos de areia. O briográfico é uma constante, as diferentes raças e origens são fielmente retratadas.

Pratt, oferece-nos um diário de guerra que não se apega à morte nem à vida, confia num caminho, uma rota com mil personagens, os desfechos não existem, estamos todos de passagem.

As dunas misteriosas, os fortes abandonados, não são mais que uma viagem espacial e simultaneamente partidária, identidades cruzam-se e perdem-se.

Temos ainda o gosto e o deslumbre visual, graças à adição de uma galeria que com as suas aguarelas, sublinha as fardas militares e os trajes tribais presentes na narrativa do livro.

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O que mais me desperta nesta série é o respeito e a descoberta nas distintas culturas, sem julgamentos prévios, antes fascínios contínuos.

Este grupo de excecionais marginais que acompanhamos, desde Stella do exército fascista, a Koinsky, um judeu polaco, até Cush, um guerreiro etíope contra o colonialismo – revelam características de igual destreza e força psicológica, quase que encontramos num grupo de degenerados, agora reunidos em função de um propósito, a esperança amarga de um futuro mais fértil.

Entre o branco luminoso e o negro espesso das páginas, Hugo Pratt reflete e significa, que nesta BD não há heróis nem antagonistas designados, há sim uma sobrevivência, uma batalha por hipóteses contra a fraqueza, o medo e a loucura.

Este segundo volume de “Os Escorpiões do Deserto”, lê se tão bem, ou melhor que o primeiro, o germe bélico está já impregnado nos seguidores da série, temos noção que a cordialidade é fábula e que a beleza do mundo é às máscaras que a devemos.

Autor: Hugo Pratt
Ilustração: Hugo Pratt
Género: Banda Desenhada, Romance Histórico
Editora: Ala dos Livros

Argumento: 8
Arte: 8
Legendagem: 7
Veredito final: 8


À conversa com Ricardo Magalhães Pereira
– editor da Ala dos Livros

 

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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