Análise – “Maldita/Cursed” – As raízes de um trono!

“Maldita/Cursed” é escrito por Thomas Wheeler e ilustrado por Frank Miller ( conhecido pelas bandas desenhadas de Batman e Demolidor, e criador da personagem Elektra, da Marvel, Sin City e 300, que receberam versões cinematográficas), nesta história que remonta à famosa espada Excalibur e às lendas do Rei Artur acompanhamos a jornada de Nimue, uma corajosa e poderosa rapariga Fey – o povo que está em extinção graças aos terríveis paladinos vermelhos, uma inquisição que não aceita diferenças. Depois de assistir à morte de amigos e à destruição da sua aldeia Nimue é encarregada pela sua mãe de transportar uma misteriosa e cobiçada espada às mãos de Merlin, o lendário mago que aparece pouco mágico nesta trama, sem heroísmo, só bebedeira.

Entre encontros e desencontros é muito especial como a escrita nos carrega na maturação e revelação das personagens que acompanhamos, com plot twists frequentes e momentos de uma comédia negra – que aliás contribui imenso para uma boa orquestração entre as características sanguinárias e humanas dos protagonistas.

As ilustrações de Frank Miller exercem no livro a função de transição de uma cena para outra, além de colaborar para uma melhor imersão do leitor – Assim como também acontece na adaptação em formato série que está agora na Netflix – funcionam igualmente como subterfúgios narrativos. Porém é nestas imagens de traço pesado e detalhadas que em equiparação com o trabalho de Thomas Wheeler encontramos um texto com pouca atenção aos corpos e feições dos seus indivíduos, tal e qual como nos ambientes, a descrição é pobre e está severamente em falta!

Felizmente em temáticas como religião, manipulação, preconceitos, sexualidades, fé e política achamos um desenvolvimento devido.

Na lenda Arturiana, a espada escolhe um rei. Em “Maldita/Cursed” a escolhida desta vez é uma rainha. Uma mulher a ser temida, venerada, confrontada e seguida. Na guerra dos homens, talvez a vitoriosa seja uma mulher. Esta jovem que se via odiada na sua própria vila pela sua ligação direta com os ocultos – deuses/ espíritos poderosos que atuam a partir da natureza. Logo passamos para uma figura que carrega a esperanças dos milhares de refugiados do seu povo, deste modo esta obra fala de superação, confiança e identidade… Sim, a fantasia é capaz de ajudar a superar problemas da realidade.

Nascidos na madrugada, perecendo no ocaso

Narrado em terceira pessoa, através de diferentes pontos de vista. O ritmo é acelerado, com uma nota de destaque para os dois argumentos diferentes: um, que aborda o conflito, a batalha em si; direta e brutal, descrevendo amputações, vísceras espalhadas, cabeças decapitadas. E outro, que segue mais lento e mais expandido, mostrando quem é Nimue e as conspirações psicológicas e sociais que este universo místico oferece.

Frank Miller e Thomas Wheeler, além de terem esta parceria em “Maldita/Cursed”, são os produtores e responsáveis pelo roteiro da série televisiva.

“Maldita/ Cursed” transmite uma curiosa e criativa re-imaginação da lenda arturiana numa visão mais jovial aos leitores. Contribui com um excelente papel na questão do empoderamento feminino e com os toques subtis e muito surpreendentes de velhos conhecidos como Lancelot e Guinevere. Contudo perde pontos em matérias essenciais de pormenorização e sensorialidade das formas e dos espaços.

Género: Fantástico, Ficção
Editora: Casa das Letras
Veredito final: 7

 

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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