Análise BD – “Mattéo: Terceira Época (Agosto de 1936)” – Utopias de areia grossa

Jean-Pierre Gibrat nunca desilude, quer pelo seu traço característico, quer pelo seu admirável senso de narrativa. O artista estudou filosofia, arte publicitária e artes plásticas, antes de passar para a banda desenhada na segunda metade dos anos de 1970. Tem trabalhos publicados em várias revistas, como Pilote, Fluide Glacial e Charlie Mensuel. Recebeu o título de cavaleiro na Ordre des Arts et des Lettres francesa em 2014.

Neste terceiro volume da aventurada jornada de Mattéo, a proximidade que sentimos com as personagens é fabulosa, rimos das suas piadas íntimas e revoltamo-nos com os seus desalentos e provas de vida – pensar que esta história se localiza com quase 80 anos de diferença da nossa realidade é de loucos! Estas pessoas exaltadas e de ritmos avassaladores convencem-nos, parecem-nos familiares – é verdade que a esperança por um mundo melhor não é moda que esgote.

As figuras e cenários que o autor projeta, revelam, assim, atmosferas cativantes, capazes de desdobrar os estados de espírito do enredo informal e formal. As cores são esplêndidas, eloquentes como o argumento, uma crueldade disfarçada que vicia.

Encontramos estas dimensões num enredo que se localiza no verão de 1936. Depois dos trabalhos forçados, Mattéo é perdoado, e graças a este feliz acontecimento passará as suas primeiras férias pagas em Collioure, na casa da sua mãe, com um bando feliz: a bela enfermeira Amélie, que conheceu no hospital militar, Augustin o noivo da mesma, que é um radical-socialista e simultaneamente um intelectual assoberbado, e Paulin, o amigo de infância fiel a Mattéo, com uns toques no acordeão.

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Contudo, os velhos amores teimam em reaparecer, Collioure é igualmente local de estadia para Julliette, a prima donna de Mattéo. Do outro lado da fronteira, a guerra espanhola assola, mas o nosso protagonista parece indiferente, prefere o Tour de France. Apesar do clima despreocupado, logo a água límpida ficará turva, logo caminhar à beira-mar já não será uma opção.

Esta BD, ainda que com 10 anos de espera, vale a pena pela sua desenvoltura nos diálogos e pela sua distinta harmonia entre movimento e estagnação, num local desenhado de forma sublime, com personagens com uma excelente estrutura e postura anatómica, os movimentos são percecionáveis!

É uma edição muito bonita, com um cuidado e primor especial por parte da Ala dos Livros. Estes elementos aliados ao espírito inquietante e inquieto de Mattéo resultam numa obra merecedora de ocupar um lugar em qualquer estante.

Autor: Jean-Pierre Gibrat
Ilustração: Jean-Pierre Gibrat
Género: Banda Desenhada, Romance Histórico
Editora: Ala dos Livros

Argumento: 8
Arte: 10
Legendagem: 6
Veredito final: 9

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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