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Análise BD – “Armazém Central: Confissões – Montreal”

Esta obra reflete a génese humana, honestamente, as pérolas e a podridão. Das relações, às inseguranças até às hipocrisias. Somos seres inconstantes, perversos e estranhamente mágicos nas nossas complicações.

Por isso o “Armazém Central” permanece questionando – Qual o papel das sociedades? Qual o papel de uma comunidade? Qual o papel de um coletivo que partilha uma rotina e que, simultaneamente, partilha memórias?

É a partir do seu rol de personagens, diversificadas e muito bem caracterizadas, que esta BD é capaz de lançar sugestões e reflexos para quem lê. De uma extrema sensibilidade e harmonia narrativa, esta história faz-se de encontros, desencontros e partidas… e ainda assim, nunca dececiona em manter sentimentos e explorar os equilíbrios de uma aldeia aparentemente disfuncional.

A ilustração, feita em conjunto entre Régis Loisel e Jean-Louis Tripp, é um processo bonito, quase uma maturação das figuras que acontece par a par entre trama e desenho. De uma crueza e profundidade, supostos antónimos, excecionais, esta série inova, com os seus traços e cores suaves em contraste com as linhas dos rostos, que são mais caricaturais. Deste modo, observa-se um espelho do mundo rural e, ao mesmo tempo, inesperadamente, uma determinação e caráter nos olhares destas faces sujas e maltratadas. Concedendo uma verdade e acreditação à história difícil de achar.

Em Notre-Dame-des-Lacs, neste início dos anos 40 do século passado, o tempo parece ter parado, mas só para os desatentos, as engrenagens estão oleadas e prontas a renovar espíritos céticos! Neste novo volume, os aldeões estão já habituados às novas ideias de Serge, e são agora seus compadres. É, portanto, a vez de Marie de abanar a população local, cometendo alguns atos mais duvidosos, e tomando uma decisão que se pode revelar final e fatal para o destino e progresso da aldeia. O ritmo do “Armazém Central” é, como sempre, delicioso, comedido e surpreendentemente atual no ajuste e confronto de temas. Seja de assuntos como a emancipação do sexo feminino, o desafio aos valores retrógrados, as escolhas e atrações sexuais, a religião e a silenciosa solidão.

O quarto e quinto volume desta obra, são então um pergaminho e um manifesto, cuja essência deve ser cuidada e debatida, quer pela sua edição e encadernação magnificas, quer pelos seus ensinamentos que nos desafiam a procurar mais e que, acima de tudo, nos avisam que lugares cómodos não são de todo seguros.

Via alertas e tolerâncias, ninguém fica indiferente ao “Armazém Central”, é um exemplo do potencial dos livros, da literatura e da matéria humana – em oferecer mais do que corrupção, em oferecer antes conteúdos emocionantes, cheios de fulgor e estima por um presente e futuro orgulhosos, temente aos seus e aos que hão de ainda chegar.

Jean-Louis Tripp, ilustrador, argumentista e colorista publicou as suas primeiras pranchas na Métal Hurlant em 1977. Após de três títulos na Futuropolis com Marc Barcelo, lança na MIilan a série Jacques Gallard. A partir de 1990, inicia um período de criação devoto ao design, escultura, pintura, reportagens de desenho e literatura juvenil. Em 2003, desenha Paroles d’anges, começando em 2006, com Régis Loisel, o longo romance gráfico Magasin Général. Desde 2015, reparte o seu tempo entre Paris e Montreal.

Régis Loisel, argumentista, ilustrador e colorista, é a partir do início da década de 80 que a sua carreira descola com a série La Quête de l’oiseau du temps (Dargaud), com argumento de Serge Le Tendre. Colaborou em várias longas-metragens de animação e foi reconhecido em 2003 pelo Grande Prémio da Cidade de Angoulême. Em 2006, lança Magasin Général (Casterman) com Jean-Louis Tripp. Reside em Montreal.

Autores: Régis Loisel, Jean-Louis Tripp
Ilustração: Régis Loisel, Jean-Louis Tripp
Género: Banda Desenhada, Romance
Editora: Arte de Autor
Argumento: 10
Arte: 9
Legendagem: 9
Veredito final: 9

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