Análise: “Greenland: O Último Refúgio” – Ser ou não ser humano, eis a questão

Em “Greenland: O Último Refúgio, cujo título já oferece um dos pontos fulcrais do filme, John Garrity (Gerard Butler) está em maus lençóis com a sua mulher ( Morena Baccarin) e afastado do seu filho (Roger Dale Floyd), porém rapidamente que esse é o menor dos seus problemas quando um cometa chamado Clarke ameaça surpreendentemente toda a vida na terra. A família embarca então numa corrida contra o tempo em que sacrifícios de ordem humana terão que ser feitos para chegar ao tão desejado santuário subterrâneo na Gronelândia.

Esta película do realizador Ric Roman Waugh, trabalha muito bem a correlação da esperança e veracidade com o entretenimento, muitos filmes apocalípticos seguem um plot repetitivo e recheado de clichés, enquanto que esta longa metragem lida realisticamente com os vários cenários achados num acontecimento deste género, acaba assim por superar os grandes efeitos especiais e ações heróicas desses outros protagonistas, por, de facto encarar as coisas como são, transformando o seu conteúdo numa experiência ainda mais assustadora.

O espectador pressente uma evolução, um andar mais moderno, separando-se desses outros trabalhos dos anos 90 e por aí fora.

Para além de refrescar temas, “Greenland: O Último Refúgio”, celebra o pior e o melhor da humanidade. Parte da população concentra-se em saquear lojas e aproveitar uns rolos de papel higiénico (Parece-vos familiar?), já outras organizam festas de despedida a alto som – eu provavelmente estaria numa dessas. Imaginem o mundo a enfrentar morte iminente, agora situem todo e egoísmo e atrocidades para com o outro que a população iria cometer, a triste verdade é que cada um corre por si, pelos seus objetos, pelos seus desejos e, neste caso, pelas suas vidas. É uma caricatura invejosa sim, mas aceitando-a ou não representa uma maioria, que infelizmente ganha sempre.

Prosseguindo encontrei cinema com um excelente build up na sua história, não dá todas as informações de bandeja, os relacionamentos vão-se construindo, as questões são respondidas sem pressa, elevando desta forma a tensão e imersão no filme… Isto advém igualmente de uma boa interpretação por parte dos atores, de todos sem exceção.

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Outro dos movimentos de génio desta obra é a instalação de um debate, como reagimos? Qual será a visão mais correta sobre uma catástrofe? Como agir justamente? Faz estas perguntas e é capaz de escapar a estereótipos!

Para além de pôr o nosso dia a dia em perspetiva, “Greenland: O Último Refúgio” não apresenta cenas aborrecidas ou de pura insuflação de mais tempo para o filme, não. Consagra-nos antes com muita emoção, twists e uma intensidade extremamente original. As personagens choram e falham, não são heróis poéticos de cadastro limpo, são peças do puzzle difícil e o violento da situação que se passa e pelo que já passaram.

Ah e não existe discurso do presidente! Aleluia que não reaparece aqui como o mensageiro da pátria, porque, como referi, esta película resiste ao individualismo, procura mais a força do coletivo. Por isso é real. Por isso acreditamos nela.

Os meus problemas e comichões surgem com a matéria da ciência, coisa que não coopera muito bem com algumas situações reveladas. Primeiro, como é que um miúdo diabético sobrevive nove meses num bunker que não aceitava e nem estava preparado para doentes? E ainda por cima um abrigo que estava abandonado há décadas e que se preparou de surpresa em poucos e limitados dias.

Segundo, nove meses é um número muito irreal, os céus não ficam limpos num espaço de tempo tão pequeno, são precisos anos! Claro que entendo esta opção num sentido de dar um certo brilhantismo ao enredo na reta final. No entanto lamento, é ridícula de mais para a ignorar. Não eliminando claro o struggle e a falta de cordialidade que existe quase sempre entre filmes acerca de desastres naturais e a ciência pura e dura.

Em suma, “Greenland: O Último Refúgio”, toca em aspetos como o privilégio de classes, questões dos imigrantes, pessoas com doenças crónicas e a presença ou a grande falta de decência humana no planeta terra com uma atenção redobrada relativamente ao percurso desta família que não sabe se há de viver ou de sobreviver.

Nota final: 7/10

 


The Witcher

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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