Análise BD – “A minha mãe acha que fui trocada à nascença” – Nascer pessoa

Editado pela Ideia-Fixa, “A minha mãe acha que fui trocada à nascença“ é um  livro que se vai distribuindo em 4 capítulos acerca da vida, bem original, ainda que os hábitos sejam constantes, de Sara-a-Dias, o alter ego de Sara Dias.

Documenta o seu percurso enquanto artista ao mesmo tempo que comicamente descreve o seu caminho escolar e em sociedade, as especialidades que o pai e a mãe acham ter, as perguntas estranhas, as partidas, os erros e os absurdos fabulosos de alguém que se vai descobrindo, a si e aos outros, os ambientes, os universos e onde cabe a justiça.

A autora deu vida a esta personagem no dia 5 de março de 2012, após o seu tupperware ter ido parar a uma poça de água em frente a uma paragem de autocarro,  a partir do olhar atento dos futuros passageiros observando-a a recuperar os alimentos e o dito tupperware a boiar na poça de água, Sara começou a criar e a transpor estes episódios da sua rotina para o papel… Assim se iniciou uma teia de desenhos satíricos acerca dos pormenores mais sórdidos e incomuns da sua existência através desta sua figura.

No início da leitura, entende-se de imediato que a delimitação usual das BDs não está presente aqui, a composição da página é o único agente divisor. Isto demonstra que Sara Dias tem um sentido mais próprio de uma novela gráfica, de leitura absoluta, clara e de fácil entendimento para o leitor. Simultaneamente este aspeto permite explorar diferentes e interessantes soluções gráficas ao longo da obra, dando-lhe novo fôlego em cada virar de página, é um livro que de forma autónoma se renova a si mesmo. Usando quase, por vezes, uma fusão dos cenários.

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É bonito achar segredos que são expostos sinceramente sem pudor ou acrescentos ficcionais para melhorar o argumento. Neste rewind à infância e à adolescência também há espaço para denúncias e chamadas urgentes para o futuro! A autora fala da sua geração abertamente, gente sempre com uma enorme vontade de trabalhar, mas diminuída pela precariedade, perseguidas por empregos pouco respeitadores dos seus estudos, está difícil de encontrar reconhecimentos verdadeiros, o termo carreira é raro, a esperança é certa, mas o desejo não é palpável…

Confessa-se feliz do feedback que recebe, o que lhe deu a oportunidade de conceber esta história, e eu admito-a corajosa por relatar a tristeza e por, afinal, perturbar o “banho-maria” em que viciamos estar.

Com os seus traços e linhas caricatas, Sara Dias não está para brincadeiras, está acordada. E todos sabemos que marcadores iniciam revoluções.

Como a própria refere numa entrevista:

Resumindo. Estou aqui, estou a ter um colapso. Mas sempre feliz.

Autor: Sara-A-Dias
Ilustração: Sara-A-Dias
Género: Novela Gráfica, Comédia
Editora: Ideia-Fixa

Argumento: 9
Arte: 8
Legendagem: 7
Veredito final: 8

A obra “Perdida num bom livro”, foi cedida simpaticamente pela Mbooks – a maior armazenista de livros em saldo em Portugal.

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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