40º Fantasporto – O belo e o bruto de um festival efêmero!

A quadragésima edição do Fantasporto realizou-se, e muito bem, no Rivoli,  de 25 de fevereiro a 8 de março, com ela vieram muitas recordações e nostalgias do passado, assim como ideais originais e criativas futuras que se fizeram corpo com os filmes apresentados.

Um festival de cinema recheado de terror, drama, comédia e, essencialmente, de gente que faz e gente que vê – uma dupla imprescindível para a qualidade e a durabilidade deste evento.

Deste modo, é como crítica e consumidora atenta que troco aqui uns pareceres de algumas longas-metragens que foram e ficaram eternizadas na tela, na saúde e na doença.

“Willow” (“Vrba”): A complexidade na imagética e no enredo de linhas aparentemente repetitivas. Entre o amor, a confiança e o direito à maternidade conhecemos três mulheres que achamos entender, só para ficarmos suspensos num desenlace e numa evolução imprevisível – difícil de reparar pós filme. É nesta corrente de tópicos polémicos que o espectador acha a razão e a causa das injustiças, representadas lindamente  por gestos e frases pouco notáveis, mas provocadoras de suspeitas.

“Lola Igna”: A humanidade egoísta, a humanidade inocente, a humanidade purificada. Este filme fala de taxas de natalidade e de mortalidade, enquanto recusa a ordem natural do crescimento. Escrevemos o nosso epitáfio desde que nascemos, porque não usá-lo? A velha Lola constrói caixões e faz partos ao mesmo tempo. Uma história que se escurece e se ilumina, nunca tendo preferências.

“Detention”: Em Taiwan um regime comunista sofre mutações metamórficas pelo peso na consciência de uma jovem, que despoleta o fim da única liberdade que conhecerá na sua vida. Vislumbramos horrores elegantes e comoventes num filme que se revira e desdobra em monstros e forcas para, por último, usar as sementes desses sacrifícios para plantar flores independentes. Possui planos pormenor aterrorizantes, sempre no bom sentido!

“Precarious”: Um filme não aconselhável a claustrofóbicos, nele encontramos uma homenagem ao onírico e ao obscuro com um certo fetichismo pela materialidade das coisas. É capaz de escapar à tradição cinematográfica e eloquentemente abraçar o estranho, é com este esquisitíssimo comportamento que o público é tomado de raiz por uma trama que passa de uma brincadeira de crianças ao perigo que é jogar com o fogo.

  Trailer para "Luca" da Disney/Pixar

“Clarita”: Baseado em acontecimentos verídicos, a infame possessão de Clarita Villanueva é uma janela para uma órbita em que o real e a ficção colidem, onde os assuntos da igreja e do estado estão entrelaçados, e onde as fronteiras da moralidade são distorcidas por questões muito maiores que os indivíduos. A falha mais flagrante é a completa ignorância a material tão rico, já que o caminho escolhido foi o de menor resistência. Um filme que assusta o suficiente das maneiras mais inortodoxas, contudo falha na complexidade narrativa necessária para o tornar memorável.

“I am toxic”: Um imaginário hostil, uma Argentina primitiva e futurista. Retornamos à natureza, mais propriamente ao deserto da criação. A ruína é celebrada, manifestada através de gangues cruéis e, mais preocupantes, hordas de zombies. Felizmente existem também comentários sociais, e ainda que algumas motivações das personagens permaneçam incertas, esse mesmo suspense funciona a favor do filme. Porém não há como negar que o ritmo das cenas, a edição, a coreografia das lutas, e o próprio storyline, são quase sempre inconsistentes, produzindo sequências de má qualidade, lentas e ineficazes.

“Cry of the sky”: Ouvimos os choros agonizantes de milhares pelas ações de uma mulher só. Provam-se elas merecedoras de afeto? Não. Querem a energia e a vitalidade de um sistema mais igualitário. O patriarcado sofre e terá que sofrer, para que as lágrimas sejam comunitárias e não por parcelas de gente. É um filme naturalmente feminista, mas, pensando bem, já não o somos todos desde nascença?

Uma programação, portanto, honrosa e crua, flagrante e atual do que se passa hoje em dia, dos amores aos desamores que temos pelo século XXI.

Raquel Rafael

Da marginalidade à pureza gosto de sentir tudo. Alcanço o clímax na escrita. Sacio-me com a catarse no teatro. Adiciona-se uma consola, um lightsaber, eye makeup quanto baste e estou pronta a servir.

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