Cinema – Crítica: A Forma da Água (2018)

O grande nomeado aos óscares deste ano é o The Shape of Water, com um total de 13 nomeações! O Central Comics já foi ver e ficou encantado com o mundo criado por Guillermo Del Toro.

O realizador está de volta com um filme único, capaz de misturar romance e horror de uma forma inovadora. The Shape of Water (em português, A Forma da Água) traz-nos a história de Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma empregada de limpeza num edifício ultra-secreto, no qual se encontra uma criatura misteriosa como prisioneira. Elisa acaba por se apaixonar fortemente por este homem-peixe, ou como Del Toro refere, “the river god”, criando-se uma história de amor que cruza o realismo e fantasia.

À primeira vista, a premissa aparenta ser completamente estranha, mas esta relação torna-se algo inevitável. Elisa é uma mulher muda que se sente constantemente rebaixada pela sociedade e encontra uma figura com a qual se consegue conectar. Este “river god”, interpretado por Doug Jones (Abe Sapien em Hellboy e Fauno em O Labirinto do Fauno) e concebido pelo trabalho excecional da equipa de caracterização e efeitos especiais, comunica com Elisa através de expressões e movimentos gestuais, afastando assim o problema que ambos têm na fala.

O realizador, tal como fizera em O Labirinto do Fauno, tem uma capacidade brilhante em maravilhar o espetador com a sua fantasia, trazendo sempre temas que acredita terem uma enorme importância a serem abordados sem se afastar da história principal. Deste modo, o filme destaca as minorias na sociedade. Elisa como uma mulher muda, a sua colega de trabalho, Zelda (Octavia Spencer) uma mulher afro-americana, o seu vizinho Giles (Richard Jenkins) um homem homossexual e o Dr. Robert (Michael Stuhlbarg) que quer proteger a fascinante criatura.  Estes todos que lutam contra o antagonista da história, Richard (Michael Shannon), um chefe de segurança que se aproveita do seu poder. Todos os atores fazem um trabalho excecional, sendo Michael Shannon dos poucos que não foi nomeado aos óscares talvez pelo número limitado de nomeações a ator secundário. No entanto, é este que traz o horror ao filme, seja pela violência perante o homem-anfíbio prisioneiro e o ódio aos seus colegas de trabalho e figuras femininas. A sua forte presença no ecrã cria um grande medo e tensão no espetador dadas as suas ações violentas e imprevisíveis desde o início do filme, criando um enorme contraste perante o romance do enredo.

Um dos elementos com maior importância no filme é a música. Esta tem uma forte presença tanto para o espetador como para a personagem de Elisa, variando entre a música clássica criada por Alexandre Desplat (O Grande Budapeste Hotel) e a banda-sonora antiga inserida no filme, indo desde a música francesa como La Javanaise, músicas brasileiras e inglesas, ou os musicais que Elisa está constantemente a ver na televisão. É assim mostrado o poder que a música tem perante a mudez da protagonista, sendo também esta uma das formas que Elisa arranja para interagir com o homem-anfíbio, chegando a ensinar-lhe a língua gestual para a palavra música. Além disto, existe também um pequeno tributo à Sétima Arte, pois Elisa vive por cima de uma sala de cinema.

A Forma da Água tem uma atenção detalhada a todos os elementos, sejam os diálogos perfeccionistas, a fotografia e efeitos especiais que criam momentos mágicos e inesquecíveis, a decoração e guarda-roupa que são capazes de captar os anos 60 e ambiente da Guerra Fria, acompanhados pela palete rica em cor verde. Havendo até uma piada dentro do filme sobre isto quando a personagem de Michael Shannon compra um Cadillac e o vendedor refere que não é verde, mas sim verde-azulado/verde petróleo (teal, em inglês). É assim perfeitamente visível o porquê das várias nomeações aos prémios da academia.

Guillermo del Toro consegue assim criar uma obra cinematográfica única e excecional, encaixando vários temas da atualidade de uma forma brilhante e demonstrando a capacidade que tem como realizador. Dia 4 de março veremos A Forma da Água nos óscares de 2018.

  • A Forma da Água estreou no dia 1 de fevereiro nos cinemas.

Pontuação Final: 5/5

Tiago Ferreira (05/02/2018)