Cinema: Crítica – A Vida de um Génio (2017)

A Vida de um Génio não é um filme especial, mas tem alguns momentos que andam lá bem perto. Um filme com Kevin Spacey, que estreou em cima da polémica.

A Vida de um GénioO filme passa o primeiro teste. Não fazer um “desde-que-nasceu-até-que-morreu” biopic, mas sim focar-se em momentos fulcrais da vida de J.D Salinger (Nicholas Hoult), o mítico escritor recluso da obra-prima “The Catcher in the Rye” e (mais importante que isso) pai de Matt Salinger, o Capitão América na também “obra-prima” de Albert Pyun.

E mesmo assim, as várias fatias da vida de Salinger passam aqui com a velocidade de um relâmpago sem nunca haver espaço para certas personagens brotarem – em especial o pai de Victor Garber (quem viu Alias, reconhece o nome), a agente de Sarah Paulson e uma irmã que vemos menos vezes que Nicolas Cage num bom filme.

Ambros entram de rompante no ecrã sem grande pompa ou circunstância, separados de qualquer profundidade, com Garber reduzido a pouco mais que algumas cenas-cliché (Mãe, bom! Pai, mau!).

O verdadeiro coração do filme está na relação entre Whit Burnett (Kevin Spacey), professor de Salinger na Columbia University que reconhece o seu talento e cuja combustão na sua relação com o jovem escritor acaba por ser um dos pontos mais atraentes em exposição.

Controvérsias de lado, Spacey dá de longe a melhor perfomance de todo o elenco no filme – apaixonante, energética, sentida, convincente e afável. É a personagem mais bem vestida de carne e osso, o que também ajuda.

Mas é Hoult quem carrega o filme e todo o seu pathos às costas fazendo também um trabalho admirável com um frágil, talentoso e ao mesmo tempo, inadequado esqueleto no qual habita um inteligente escritor. A perfeita e a imperfeita companhia para todos os que o rodeiam.

A Vida de um Génio

Se não ocupasse o meu tempo livre a escrever palavras para o ar, talvez os momentos especiais não tivessem importado tanto. Talvez nem sequer reparasse neles ou na inicial rejeição de Salinger, mas são esses breves cliques de desespero e impotência que voam mais alto aqui.

O filme de Danny Strong passa demasiado rápido sem aprofundar o suficiente, tirando da cartola várias personagens e colocando-as à mercê de Salinger sem qualquer mérito ou desenvolvimento, sendo cuspidas de volta por não estarem devidamente preparadas.

Agora que penso, mais Salinger que isso é (quase) impossível.

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Tiago Laranjo