Crítica: Cinema – Blade Runner 2049 (2017)

Michael Myers. Jason Voorhees. Freddy Krueger. Leatherface. Tyler Perry.

Estas são algumas das máquinas assassinas mais incessantes na história de Hollywood. Macabros ícones do terror que bala após bala, morte após morte se recusam a ficar no chão. Não por sua vontade própria, mas porque algo mais os chama. Neste caso, vários amiguinhos verdes.

Harrison Ford in Blade Runner 2049 in association with Columbia Pictures, domestic distribution by Warner Bros. Pictures and international distribution by Sony Pictures Releasing International.

E no verão de 1982, não havia amiguinho verde mais implacável que o adorável E.T de Steven Spielberg que num dia conseguiu afundar três filmes de ficção cíentifica. O primeiro, uma obra-prima de John Carpenter que nasceu com o nome de The Thing. O segundo, Megaforce e o paraíso-latex de Barry Bostwick.

E o terceiro?

O terceiro influenciou (quase) todos os filmes de ficção-científica que seguiram as suas pegadas com um saboroso guisado de noir clássico, George Orwell e Metropolis salteado com as páginas visionárias da revista Heavy Metal – no que é ainda hoje a crème de lá crème de adaptações de obras do Phillip K. Dick (desculpa, John Woo. Para a próxima!).

BLADE RUNNER 2049

(Center) MACKENZIE DAVIS as Mariette in Alcon EntertainmentÕs action thriller ÒBLADE RUNNER 2049,Ó a Warner Bros. Pictures and Sony Pictures Entertainment release, domestic distribution by Warner Bros. Pictures and international distribution by Sony Pictures.

São conhecidas as histórias de narração forçada, reciclagem de Kubrick e sonhos com unicórnios misteriosos entre o bazilião de versões que existem de Blade Runner a juntar a uma produção difícil e críticas mornas – mas o que ficou foi uma misteriosa peça melancólica e pulsante que nos agarra muito antes de nos sequer tocar. Numa outra palavra, inesquecível.

2017. E eis que, (se esquecermos a companhia de Soldier) – nos surge Blade Runner 2049. Não pela mão original de Ridley Scott, mas sim às costas (mais que quentes) do talentoso Denis Villeneuve, que muito provavelmente detém o melhor record atual no que toca a uma filmografia.

E aqui continua, numa sequela digna do nome e dona de um enorme pedigree tanto atrás como à frente da câmara que vê não só um Harrison Ford rejuvenescido, como um Roger Deakins a fotografar tudo e todos como se não houvesse amanhã (ou se fosse muito, muito sombrio).

Ryan Gosling conduz grande parte do filme e sim, não é o Gosling de The Nice Guys. Mas ele conhece este registo e consegue fazê-lo como ninguém, ilustrando o filme com os toques e as emoções perfeitas tanto para a personagem como para o mundo em que vive – incluíndo todas as perguntas que nele existem.

BLADE RUNNER 2049

(L-R) RYAN GOSLING as K and HARRISON FORD as Rick Deckard in Alcon EntertainmentÕs sci fi thriller ÒBLADE RUNNER 2049 in association with Columbia Pictures, domestic distribution by Warner Bros. Pictures and international distribution by Sony Pictures Releasing International.

Perguntas essas que Blade Runner 2049 se dedica arduosamente a explorar e se há algo que não o podemos acusar é de não se levar a sério. O filme não morde só a bala – praticamente come o revólver todo! O original dava umas trincas mais pausadas, e entre aqui e ali tinhamos um James Hong que só fazia olhos ou uma careta engraçada do Rutger Hauer. 30 anos mais tarde, nem por isso.

2049 é também uma jornada mais longa, expansiva e épica na Los Angeles do futuro – tendo talvez mais Phillip K. Dick no seu ADN que Dashiell Hammett. Nem tudo resulta (grande parte da relação entre Gosling e Ana de Armas acaba por não aterrar com grande impacto) e o filme não perdia nada em utilizar uma tesoura em si mesmo, o que acaba por se transformar numa experiência diferente (e com direitos a menos visitas no futuro) do que o original de Ridley Scott.

Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch substituem aqui não só Vangelis como também o compositor habitual de Villeneuve, Jóhann Jóhansson – numa partitura fiel ao espírito da original, mas da qual não me consigo lembrar de nenhum tema em específico por mais que tente.

Blade Runner 2049 está a receber mais amor que o original alguma vez recebera no seu lançamento. Não é à prova de bala (tal e qual como o original não o era), mas tem uma lista de conceitos suficientemente longa e provocante para dar voltas ao quarteirão e para questionar qualquer cabeça de um humano ou replicante.

Talvez com questões como: Quem diria que haveria uma sequela a Blade Runner? E quem diria que seria Burt Reynolds e a sua Melhor Casa de Prazer do Texas a destronar o pequeno extraterreste de Spielberg do top das bilheteiras? E o que ficaria verdadeiramente depois de a poeira assentar?

Eu digo-vos o que ficou. Foi algo mais rijo que todo o látex de Megaforce.

O que ficou, foi a Melhor Casa de Prazer de Los Angeles.

Versão 2049.

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