Comic Con Portugal em Lisboa – Razões e outras especulações…

A Comic Con Portugal vai de malas e bagagens para Lisboa! Surpresa…? Nem por isso. A verdade é que, desde a sua primeira edição, havia rumores de que, mais cedo ou mais tarde, o evento iria para a capital.

Os boatos eram mais do que muitos. De facto, falava-se que os criadores do evento tinham um acordo por X anos com a Exponor — factor que fez baixar consideravelmente o preço do arrendamento do espaço — e que, após esse período, o mais certo seria rumar à “principal cidade portuguesa.” As “dicas” que me chegaram davam conta do contrato com a Exponor ser de cinco anos, mas, pelos vistos, terá sido de apenas quatro ou terá havido uma rescisão de contrato antes do seu término, pois este será o quarto e último ano em que teremos o evento em Matosinhos.

Em termos puramente especulativos da minha parte, tenho algumas teorias para isto. A ver:

Paineis às moscas

Paineis de Banda Desenhada às moscas

1) A empresa City – Conventions in the Yard, apesar de ter sede em Matosinhos (localizada no edifício da Exponor), é um ramo do Grupo Imperial, ou Thinking Gold, SA, com sede em Braga — uma empresa de eventos sociais e empresariais, com pouca ou nenhuma experiência na cultura pop. A decisão de terem vindo para Matosinhos (Porto), dever-se-à a vários motivos, tais como a proximidade a Braga (o que facilitaria as viagens entre as duas cidades); preços do arrendamento da Exponor (que deverão ser mais baixos do que os de espaços semelhantes em Lisboa, permitindo ao evento uma mais fácil implementação nos sempre difíceis primeiros anos); e alguma outra parceria que tenham conseguido, a qual, presume-se, seria impossível de efectivar na capital. Assim, terá sido mais fácil usar o Porto, onde os riscos seriam menores, como “cobaia” para um evento desta magnitude, inédito até à data no nosso país (se exceptuarmos o “tiro de partida” que foi o BDFórum, em Lisboa, no ido ano 2004).

2) Apesar dos disparates cometidos, principalmente no primeiro ano (como, por exemplo, o de ter um esbanjamento de recursos que raramente eram usados e que, quando não eram, estavam “às moscas” — falo, nomeadamente, dos vários auditórios espalhados pelos pavilhões), aparentemente fartaram-se de fazer dinheiro, pois houve quem, no final do evento, visse os organizadores manifestando-se fisicamente em palco, felizes pelo sucesso do evento, faltando apenas atirar notas de 100€ para o público (se me permitirem completar a caricatura da situação). Talvez todos aqueles ecrãs gigantes e estruturas subutilizadas não tivessem tido, sequer, qualquer custo e tenham sido obtidos através de parcerias…? Mas, se foi tudo orçamentado, então os gastos terão sido consideráveis, donde cálculo que, com um pouco mais de organização, tivessem conseguido poupar uns valentes milhares de euros…!

comic con portugal pessoas

Fila para sessão de autógrafos dos actores

3) A partir daí, foi cimentar o projecto, experimentar coisas novas e ver a reacção do público, que tem sido largamente positiva, pelo menos a nível de visitas. Feito isto, e terminado o acordo contratual com o Centro de Exposições de Matosinhos, “’bora lá para Lisboa, que é onde as pessoas têm mais dinheiro”. E toda a gente bem sabe que Portugal é “Lisboa e arredores”, certo…? Com todo o respeito que tenho pela cidade e seus habitantes (a minha esposa é lisboeta), de facto quem mora nessa região está tão habituado a ter tudo lá concentrado que ter de fazer uma viagem de 300 Km é quase como ter de ir ao outro lado do mundo. Eu sei que a CCPT teve, e terá (em Dezembro), muita gente que se deslocará de Lisboa, mas, de uma forma geral, é assim que as pessoas pensam (confirmado por muitos contactos que tenho dessa região).

4) Há ainda a curiosidade de ter sido contactado por uns jovens, logo após a segunda edição da CCPT (primeiro por telefone e depois por e-mail), no sentido de sondarem o meu possível interesse em estar presente (com a loja O Lobo Mau) numa “comic con europeia”, em Lisboa. Alegadamente, haveria uma grande empresa apostada em fazer uma versão da CCPT em Lisboa, porém, disseram-me, “muito maior e mais bem feita” (enquanto se fartaram de criticar a Comic Con Portugal). Alguns meses depois, tentei uma e outra vez chegar à fala com estas pessoas, mas

Zona Comercial

A zona comercial de 2016, com notório decréscimo de número de expositores // PtAnime

não mais obtive qualquer resposta. Agora, surge a notícia de que a CCPT tem um novo parceiro, a Great Global Events. Terá sido esta a entidade que agora se juntará aos organizadores originais, ou serão novos no mercado? Segundo o seu site, a GGE iniciou-se em 2016, mas poderia existir antes com outro nome. E, com uma pequena pesquisa, a CITY aparenta ser uma empresa que juntava membros do tal Grupo Imperial com a própria Exponor. A ser assim, não veremos mais este nome associado à convenção em 2018. Aliás, nestes novos comunicados de imprensa já nem se menciona a CITY.

5) No entanto, e no que toca à zona comercial do evento, aproveito para apontar que a última edição, em especial, deixou muito a desejar. Vários motivos terão levado muitos lojistas a não estar presentes na edição de 2016 (os preços exorbitantes dos stands; o evento ter passado a ter a duração 4 dias, em vez de 3, o que faz aumentar as despesas para quem vem de longe, etc.), deixando assim este pavilhão notavelmente parco de stands, com corredores mais largos e, até, pouco convidativas “clareiras.” Isto, para não falar da falta de variedade de lojas e merchandise à venda, contrapondo-se o excesso de POPs e os tradicionais bootlegs chineses. Será esta mais uma razão para a mudança (visto que as maiores lojas portuguesas do género estão em Lisboa), a juntar ao facto de, por esta ser a cidade mais populosa do país, ser mais convidativo aos lojistas estrangeiros?

Ricardo Cabral no Artist Alley - The Lisbon Studio

Ricardo Cabral no Artist Alley

6) Certo é que, para a banda desenhada, ao norte do país, a CCPT não faz falta. A organização nunca se importou muito com a BD, antes pelo contrário, relegando-a sempre para um canto… literalmente. A BD, num evento montado em redor da banda desenhada, foi sendo pautado por uma programação pobre, localização fraca (principalmente em 2015 e 2016), com um terrível planeamento e o pior espaço de todo o evento. Vocês poderão dizer “Ah, mas era logo a primeira secção” — sim, é verdade, mas situava-se à esquerda de quem entra e, aqui fica a dica, as pessoas têm a tendência de seguir em frente ou virar à direita quando entram em eventos, lojas ou exposições; a secção da BD ficou à esquerda, esquecida e pobremente aproveitada. E o artist alley remetido quase totalmente atrás de um “muro de Berlim” e completamente invisíveis para os visitantes menos atentos?
Salvando-se apenas alguns bons nomes de autores que por lá passaram, pouco mais há a aproveitar.

Notas surreais no comunicado de imprensa sobre a ida da CCPT para Lisboa:

– Em entrevista ao “Dinheiro Vivo”, Paulo Santos, o director executivo da Great Global Events, disse “É uma mudança natural. Ao realizarmos este evento em Lisboa criamos uma ponte mais rápida para chegar a espanhóis e outros europeus que queiram vir fazer parte desta festa”.
A dupla piada disto é que uma das mais-valias, anunciadas pela própria City, era o facto da CCPT ter lugar no Porto em vez de Lisboa, chegando assim a mais espanhóis, nomeadamente aos galegos (o Porto está a apenas 150 km de Vigo — pouco mais do que para Coimbra, e a 300 da Corunha — o que é sensivelmente a mesma distância para Lisboa). E então, querem dizer que os espanhóis e europeus tem uma ponte mais lenta para chegar ao Porto? Não me digam que a única forma de chegar cá é de barco a vapor…?

Fil

Será a FIL o novo “poiso” da Comic Con?

– Pelos vistos, querem dividir o evento em cinco locais, e não concentrar-se num único centro de exposições, para, supostamente, “promover a interactividade e o conceito por temas, além de introduzir uma componente festivaleira”. Esperem lá — um festival não se faz também e apenas num só local? E, não é por nada, mas ter um festival dividido em vários sítios é um valente disparate, principalmente num festival de curta duração, como é o caso. Do ponto de vista do visitante, ou se perde imenso tempo em transportes, ou se perde pelo caminho a vontade de visitar os focos fora do recinto principal (isto, pressupondo que irá haver um recinto principal sequer). Na minha experiência pessoal, quando o AmadoraBD faz isso, acabo por nunca ir aos outros locais secundários. Lembro-me de ter ido a uma mostra exterior, por ser relativa a Neil Gaiman, e, surpresa das surpresas, ouviam-se os grilos lá dentro e o pó acumulava-se nas molduras.

– E continua: “pode-se encontrar uma versão mista e dividir o evento por Lisboa e Porto. Podemos até ir para outro sítio. Mas sabemos que Lisboa tudo fará para nos seduzir e cativar”. Bom, faz-se tudo o que é bom em Lisboa, e depois atiram-se rebuçados para a província para alegrar os pobres. Parece-me bem.

Como nota final, queria deixar bem claro que tudo o que aqui escrevi é uma leitura baseada em alegações, rumores ou constatação de factos.

E vocês? Qual é a vossa opinião?

Hugo Jesus


Qual é a editora de BD mais barata em Portugal?