Cinema: Crítica – Alien: Covenant (2017)

Alien: Covenant – Sem rodeios, aqui vai: prequelas, são geralmente, sempre um desperdício de tempo. Porquê, digo eu? Porque se fossem verdadeiramente importantes seriam o original.

Claro que neste caso estou a falar do muito divisivo Prometheus – que marcou o regresso de Ridley Scott ao universo que o meteu no mapa em 1979. Originalmente uma prequela directa com o nome de Alien: Engineers que acabou por se perder com Damon Lindelof (sim, foi de propósito) a criar mais perguntas do que respostas.

Alien Covenant

Culpa de Lindelof, do próprio Scott ou da Fox permanece ainda como algo incerto mas certo foi o facto do abandono total de uma sequela que nas palavras de Lindelof se “se iria afastar ainda mais do original”, sem quaisquer xenomorphs nas palavras de Ridley Scott e com um foco total no próximo destino da Dr. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) – Paradise seria o nome.

Damon Lindelof acabou por sair do projecto, Scott voltou atrás na palavra e Rapace não segue de todo a história no que viria a ser retitulado de Alien: Covenant – passando agora a seguir uma tripulação numa missão de colonização que após um grave acidente é acordada do seu hipersono, conseguindo intersectar uma transmissão que os levará para um estranho planeta onde vários mistérios os aguardam.

Soa familiar? Então é porque é – desde a direcção de arte, às notas musicais memoráveis do falecido Jerry Goldsmith, à triupulação de bata azul, ao próprio visual Ripley-zesco de Katherine Waterston. Tudo com o propósito de nos levar mais perto ao imortal clássico de 1979.

E aí está o verdadeiro problema do filme. Parece um alien, anda como um alien, mas grasna como um pato. Se for esse o animal que quer ser, porque entre as reflexões poéticas e existenciais de Michael Fassbender (num papel duplo que é de longe a melhor parte do filme), a caça habitual de um slasher saído dos anos 80 e uma tentativa de juntar os dois primeiros filmes do franchise com Prometheus acabamos com um filme que muda de identidade de 10 em 10 minutos.

Toda esta aproximação ao viscoso original do próprio Scott seria bem-vinda, não fosse ela da autoria de um realizador diferente. Porque este não é o Ridley Scott de Alien e Blade Runner. Não, não. Este é o Ridley Scott de Hannibal e Black Hawk Down – onde o excesso é tudo e a calma, pouca. Ou seja, em vez da pulsação pausada e profunda de Alien temos um batido de explosões, gore gratuito, uma câmara frenética e alguns efeitos digitais bem questionáveis.

Alien Covenant

Se o próprio Scott tivesse realizado o muito odiado AVP: Requiem, não teria sido muito diferente deste Covenant. Sim, seria uns furos acima do que os irmãos Strause nos deram e mais uma vez, essa mesmo subida de nível seria ganha instantaneamente pela presença de dois Michael Fassbenders que aqui polvilham o filme com questões de identidade, criação e consciência. Dois papéis verdadeiramente fascinantes (David e Walter), que servem de tributo a duas das mentes que ajudaram a tornar o original o que é – David Giler e Walter Hill.

Ao contrário do que Giler e Hill fizeram para o original, não temos aqui nenhuma personagem (humana) remotamente memorável ou particularmente digna do nosso investimento emocional. Não que Katherine Waterston esteja mal no papel, mas não ajuda que o seu backstory pareça forçado e repentino. Talvez a que mais se aproxima de uma possível ligação seja o novo-capitão de Billy Crudup, dividido entre uma questão de fé e o seu dever e responsabilidades para com a sua missão. Um ângulo com ponta para ferrar que não é devidamente minado.

Lembram-se de como em Halloween II, John Carpenter famosamente bebeu uns litros de cerveja e acabou por escrever Michael Myers como irmão de Laurie Strode, tirando-lhe assim qualquer mística que ele tivera no original? Isso foi exactamente o que Prometheus fez, o que Covenant faz e o que Scott continuará a fazer se tudo correr de acordo com o seu plano.

Nada apagará o original das nossas memórias, nem o tirará das nossas prateleiras – lembro-me exactamente de todo o mistério e de cada arrepio que aqueles créditos iniciais provocaram em mim quando o aluguei pela primeira vez. Covenant tem o completo oposto de um genérico desse nível, optandto por tomar o caminho de episódio televisivo e passar os créditos enquanto personagens falam. Se existe uma prova de diferença mais simples e directa entre os dois filmes, eu não conheço.

E para sempre, esta será a maldição da série – um original tão bom que torna a comparação e o salto à barra quase impossível. Cameron conseguiu, Fincher teve um treino complicado e Jeunet decidiu jogar basketball. Scott falha a sua segunda vez.

Parágrafo final da crítica de Alien: Covenant, terceiro colaborador ao serviço. O tripulante Ridley não conseguiu cumprir a sua missão. Cargo muito parecido a uma encomenda anterior. Melhor, mais robusta. Tentarei novamente daqui a 3/4 anos. Com alguma sorte, alguém me irá salvar. Tiago Laranjo, último sobrevivente do Central Comics. Signing off.

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Tiago Laranjo