Sequelitis – John Wick 2 e T2: Trainspotting

“Sequelitis – reciclar o primeiro filme na sequela. Quase despido de originalidade.”

Trainspotting 2

PARTE I: A cor do dinheiro

Muito sucintamente, o escritor William Goldman no seu “Which Lie Did I Tell?” resumiu toda a origem de uma sequela ao compará-la com uma prostituta. Agora, adivinhem qual o factor em comum de ambas.

Esse mesmo.

Mas este “esse mesmo” é o que faz esta indústria girar e seja na última cacofonia de Michael Bay ou no sonho de longa data de Martin Scorsese ninguém quer perder dinheiro – ou seja, nada surpreendente que quando algo resulta alguém salte para cima da mesa e grite “mais um, por favor”.

E aqui, a coisa complica-se. Imaginem aquela panóplia de portas dos Monsters Inc. e terão uma ideia da quantidade e variedade de sequelas que existem. Inevitavelmente, muitas caem no esquecimento e se eu perguntasse “Sabem que o The Sting tem uma sequela? E o Saturday Night Fever? Que tal o King Kong? Chinatown? 2001?”, talvez as respostas não fossem muitas (e algumas destas sequelas ficam bem melhor assim).

Claro, o contrário acontece. Pensem The Godfather Part II, The Empire Strikes Back ou para indivíduos do planeta Zeist, Highlander II. Boas sequelas são possíveis, sim. Geralmente, expandem e constroem em cima de tudo o que foi de bom no primeiro. Furam ainda mais fundo nas suas personagens e conflitos principais e quem sabe, até mudam radicalmente de género (James Cameron é perito nestes casos).

Podem demorar quase 60 anos para verem a luz do dia (Fantasia 2000) ou apenas um punhado de meses (Son of Kong), mas se há algo que nunca, nunca, nunca, NUNCA podem fazer é…

John wick 2

SER EXACTAMENTE IGUAIS AO ORIGINAL

Este é o pecado cardinal. A derradeira prova para a imortalidade.

Home Alone 2. Another 48 Hrs. Dumb and Dumber To. Die Hard 2.

Honestamente, tenho uma grande sentimentalidade por três dos filmes acima mencionados, infelizmente isso não faz deles melhores sequelas. São exemplos que pegam simplesmente no primeiro filme que tanto sucesso teve e fazem-no outra vez, só que diferente, mas igual.

“Como é que a mesma m**** pode acontecer ao mesmo tipo duas vezes?” pergunta Bruce Willis a sentir o que é ser John McClane num aeroporto de Washington ao lembrar-se do que era ser John McClane num arranha-céus de Los Angeles.

“Não pode.” – digo eu – “Vê se a consegues mudar, sem estragar.”

E assim, Bruce Willis sente o que é ser revitalizado ao ser John McClane no seu habitat natural (Nova Iorque), com o seu realizador natural (John McTiernan) e um Samuel L. Jackson em fúria. Não só isso, mas consegue atar pontas suficientes ao original para andar respeitosamente ao lado dele como um irmão mais novo.

Moral da história: se forem irmãos, tenham personalidade. Não se vistam de maneira igual. A não ser que sejam o Schwarzenegger e o Danny DeVito.

PARTE II: Wickpotting

Olhemos agora para duas sequelas que estão sentadas confortavelmente num cinema mais próximo e que, não poderiam ser mais diferentes se tentassem.

De um lado, John Wick 2 – a continuação ao êxito surpresa que foi John Wick, uma das melhores histórias de vingança dos últimos tempos que deu a Keanu Reeves um novo néctar de estrela de acção. Aqui, tivemos uma espera de apenas três anos e a história em si arranca quatro dias depois do original.

Reeves continua perfeito para o papel e tecnicamente, a acção está lá (desta vez, num estado mais surreal), mas se Wick 2 nos dá a conhecer o seu universo, também sente dificuldade em trazer algo de novo para a personagem, em encontrar uma razão para ela estar verdadeiramente ali. Ou seja, mesmo que cada pontapé e bala soem que nem trovoada, a história mal tem força para gritar uma sílaba.

Mas o filme tem os seus pequenos prazeres (uma brilhante troca de tiros silenciosos entre Common e Reeves é o ponto alto do filme) e ao que parece, Keanu Reeves gosta mesmo de armar confusão em festas nocturnas. Cuidado para a próxima vez que forem sair, porque pode estar um John Wick debaixo do vosso copo…

…ou então cuidado, porque poderão encontrar Renton, Sick Boy, Begbie e Spud no que é o seu regresso 20 anos depois (tanto na vida real, como na história) em T2: Trainspotting – a muito aguardada sequela de Danny Boyle ao seu inesquecível filme, baseado nas obras de Irvine Welsh.

T2 tinha mais uma tarefa mais-que-titânica no seu prato e na maior parte do seu tempo, consegue fazê-la com admirável respeito. Todo o filme tem uma melancolia de vidas imperfeitas e não realizadas, complementadas por momentos verdadeiramente divertidos e outros desesperadamente trágicos, com as quantidades de nostalgia e material novo na dose certa.

Se há uma coisa completamente diferente, é o estilo em que é rodado. O rebelde de 28 Days LaterAnthony Dod Mantle aplica um frenesim digital de cores e ângulos completamente diferente das do primeiro filme e mesmo que torcem o nariz em um momento ou outro, não podemos negar que dá ao filme uma identidade própria.

E sim, é bom ver o gangue de volta numa viagem que consegue tocar em vários pontos do coração com uma precisão exacta, dando a cada membro a sua oportunidade de brilhar, mesmo para quem não traga nele o primeiro filme.

PARTE III: Estamos curados?

De todas as sequelas que existem, duvido que estas tenham tido o infeliz destino de sequelitis. John Wick 2 é a que mais se aproxima e sim, se o primeiro não tivesse feito dinheiro, não a estaríamos a ver mas independentemente da força do seu conteúdo narrativo ou do pouco que trás de novo para a mesa, não temos um filme nem um Keanu Reeves em piloto-automático.

T2 entregou um excelente convite de volta e uma dedicada carta de despedida às personagens que tanto marcaram o primeiro filme, deixando-lhe um legado ainda maior. Não é um filme perfeito, mas é um arco-íris cinzento de emoções que ficará com vocês muito depois de saírem da sala.

Sim, sequelas são feitas por dinheiro. Mas nos melhores dos casos são feitas porque existe uma afinidade com o original e por vezes, nem foram as receitas de bilheteira que deram origem a outra aventura (o caso de Austin Powers e Hellboy).

E sim, sequelas são feitas por dinheiro. Mas lembrem-se, ninguém fez o original por rebuçados e quer a sequela seja corajosa ou faça menos riscos que o Stevie Wonder a conduzir, no movie business a) ninguém quer perder dinheiro e b) não há nenhum outro como ele.

Não há mesmo nenhum outro como ele.

Tiago Laranjo