O ano da BD em 2016: Lançamentos, mercado, eventos

Agora que 2016 começa finalmente a ficar para trás, podemos fazer um balanço do ano passado em termos de BD, e pelo caminho falar um pouco do mercado e do que nele aconteceu, e recapitular também algo do ano 2015.

Editoras e lançamentos

Esta análise é feita por alguém que está profundamente mergulhado nesse mercado como “participante” (sou sócio de uma das editoras activas no mercado e faço a coordenação editorial de vários outros projectos, ao ponto de cerca de 40% de todos os livros editados em 2016 terem passado pelas minhas mãos), pelo que será sempre uma análise comprometida, que deverá ser vista com alguma “desconfiança” e olhar crítico.

Existem muitas maneiras de começar uma análise deste género, mas a mais simples consiste em olhar primeiro para os lançamentos e para a realidade das editoras que estiveram activas no mercado. Desta análise exclui o mercado de revistas de bancas, pela razão de que me parece que ele vive separado do resto da edição de BD em Portugal, e pelo facto de se resumir (grosso modo) à Goody e aos títulos Disney, depois da fracassada experiência da Panini de edição de Marvel. As outras publicações que existam são geralmente pontuais, ou não têm a BD como parte principal do seu conteúdo. Exclui também todas as BDs importadas: por um lado as suas vendas não são especialmente relevantes, e por outro, se contribuem para uma maior diversidade de BD disponível (sobretudo no caso das editoras brasileiras Panini e Mythos), não representam nenhum tipo de esforço ou investimento específico no nosso mercado. E finalmente, separa os lançamentos de BD de editoras consagradas ou estabelecidas, das edições de autor, fanzines etc… que representam apesar de tudo uma parte importante da produção nacional.

Caravaggio, Arte de Autor

Caravaggio vol. 1 – Arte do interior

Existem neste momento no nosso país algumas editoras que eu classificaria como “de BD”, ou por se dedicarem exclusivamente ou quase à BD, ou por lançamentos regulares e presença importante na BD. Neste momento, as editoras de BD no nosso país são: Arte de Autor, ASA, Bicho Carpinteiro, Chili com Carne/MNRG, Devir, G.Floy, Kingpin, Levoir, Planeta, Polvo e Salvat. Um pequeno grupo de 11 editoras apenas, que no ano de 2016 lançou um total de 180 títulos. Na minha análise contabilizei um total de c. 225 livros/edições de BD, mas admito que me tenham escapado algumas (poderão encontrar um PDF no fim deste artigo com uma listagem, e caso algum leitor detecte falhas ou omissões, agradecemos envio de email para [email protected], iremos corrigindo à medida). Agradeço também ao Pedro Cleto (de As Leituras do Pedro), que me ajudou a coligir os dados todos, e que publicou também já a sua análise, que pode ser lida em complemento desta.

Neste total de 225 títulos incluem-se também as seguintes edições variadas: títulos lançados por editoras generalistas que pontualmente editam BD (Bertrand, ou Tinta da China, p.ex.), e vários títulos que classifiquei como “independentes/edições de autor/fanzines”. É uma categoria ambígua, e que tem importância no geral, como ponto de lançamento de autores portugueses, como local de experimentação, etc… mas que não têm grande impacto no panorama nacional da BD (o seu efeito é restrito ao grupo muito limitado de algumas centenas de fãs).

STAR WARS AJUSTE DE CONTAS NA LUA DOS CONTRABANDISTAS

Star Wars: Ajuste de Contas – Arte do interior

Como primeira conclusão, podemos dizer que as “editoras de BD nacionais” (as 11 que editam BD com regularidade) editaram c. de 80% dos livros de banda desenhada lançados este ano em Portugal. Este número sobe para c. 90% se incluirmos as edições independentes na categoria de “editoras de BD”.

No grupo das 11 editoras de BD, podemos identificar dois pelotões: o da frente, essencialmente composto pelas editoras com mais lançamentos, ou tiragens claramente maiores, e as outras mais pequenas. No primeiro pelotão temos: ASA, Devir, GFloy, Levoir e Salvat. No segundo a Arte de Autor, Bicho Carpinteiro, Chili com Carne, Kingpin, Polvo e Planeta. Aqui encontramos uma das primeiras dificuldades de análise, que tem a ver com o critério que usamos mais prioritariamente: número de lançamentos por ano? Ou vendas? Ou tiragens/vendas unitárias? Alguns exemplos: a Polvo contabiliza 8 livros de BD, versus os 7 que a Planeta lançou. Mas na verdade – e qualquer que seja a análise que façamos da qualidade dos títulos editados pela Polvo – a Planeta deve ter impresso só dos primeiros dois volumes de Star Wars que lançou (ou do primeiro?), tanto ou mais como TODOS os livros da Polvo juntos. Nesta análise é quase impossível estimar vendas (e quase não se sabem números), pelo que usarei o número de lançamentos como o principal indicador.

NOVELAS GRAFICAS 2016 15 os exércitos do conquistador

Os Exércitos do Conquistador – Arte do Interior

Relativamente às editoras de BD maiores diria o seguinte:

A Levoir afirmou-se este ano como a principal editora de BD no nosso país, certamente em número de lançamentos e em impacto mediático, mas sobretudo em número de lançamentos. Foram 45 livros (contra 39 no ano passado), distribuídos por 16 títulos de super-heróis DC, e 18 livros inseridos no conceito “abstracto e algo indefinível” de Novelas Gráficas, de várias proveniências em termos de países de origem, géneros, etc… Colecções às quais se juntam o lançamento em 11 volumes de Sandman, de Neil Gaiman.

Já a Devir tem tido um percurso bem marcado na sua evolução: depois de um período de relativo adormecimento, tornou-se sem margem para dúvida na segunda editora de BD do nosso país. Em 2015 tinha subido a sua produção para 21 lançamentos, mas em 2016 foram 37 lançamentos, quase o dobro. Neste total, o manga é predominante no catálogo da Devir (23 lançamentos), e o restante é constituído essencialmente por títulos de comics independentes americanos, entre os quais podemos contabilizar alguns títulos virados para leitores mais juvenis (num total de 5 volumes).

bernard prince 10

Bernard Prince 10 – O Sopro de Moloch – Capa

A ASA manteve um programa editorial que não mostrou qualquer surpresa, que parece viver de trabalho feito em anos passados, e de livros retirados de um catálogo muito clássico (e algo datado). Foram um total de 27 livros (contra 28 no ano passado), dos quais 22 inseridos em apenas três colecções lançadas em conjunto com o Público: Bernard Prince, Jonathan e Túnicas Azuis. Dito isto, este ano foram lançados mais álbuns fora do Público, 5 contra 2 do ano passado.

A Salvat apareceu no panorama editorial com uma colecção de livros da Marvel, e não hesito em incluir a editora neste pelotão da frente. A sua colecção tem tiragens e ritmo de lançamento que justificam esta inclusão, e com 26 lançamentos em 2016, integrou automaticamente o grupo das “editoras de BD da frente”.

A GFloy mostrou também uma forte progressão no seu número de lançamentos: em 2015 era “a maior dos mais pequenos”, com 10 lançamentos, e em 2016 tornou-se na “mais pequena dos grandes”, com 19 lançamentos. A editora concentrou-se em séries americanas, algumas independentes mas relativamente comerciais e outras de heróis da Marvel, e estreou também o seu primeiro romance gráfico, vindo do mercado francês.

Saga volume 4 - Página 4

Saga volume 4 – Página 4

As editoras maiores de BD representaram um total de 154 edições, ou seja c. 70% do total da produção nacional.

ASA: 27 títulos
Devir: 37 títulos
GFloy: 19 títulos
Levoir: 45 títulos
Salvat: 26 títulos
Total: 154 títulos

Atrás deste grupo inicial, temos outras 6 editoras, que podemos dividir assim: por um lado, 3 editoras muito ligadas à edição de autores portugueses (com uma história importante neste domínio), Chili com Carne (CCC), Kingpin e Polvo – não obstante terem catálogos diversificados – às quais se juntaram nestes últimos tempos mais 3 editoras regulares, Arte de Autor, Bicho Carpinteiro e Planeta. Por ordem alfabética:

A Arte de Autor surgiu este ano como editora de pleno direito. Depois de um único lançamento em 2015, foram 5 em 2016, maioritariamente dentro da categoria de “romances gráficos”, incluindo dois títulos de autores espanhóis, e o restante dos lançamentos saídos do mercado francês.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa

A Vida Oculta de Fernando Pessoa – Arte do Interior

A Bicho Carpinteiro poderia ter ficado na categoria mais diversificada das “outras editoras”, mas teve um dos bons sucessos do ano, em termos de autores portugueses (e brasileiros), e com dois lançamentos parece querer tornar-se numa das editoras regulares de BD no nosso país.

A Chili Com Carne veio de um ano muito forte de 2015, em que lançou 14 títulos (embora alguns mais ou menos a meio caminho entre o livro e o fanzine, mas optei por incluí-los a todos, até pela originalidade do catálogo da editora), e diminuiu a sua produção em 2016 para um total de 6 lançamentos.

A Kingpin teve também uma descida da sua produção: de 8 lançamentos (mais 3 em inglês) passou a apenas 2 em 2016 (um autor estrangeiro, e um mini-comic de autor português, sendo que atrasos em projectos de autores portugueses foram provavelmente a razão da diminuição [editado]).

A Planeta aparece pela primeira vez como editora de BD regular, com sete volumes de BD americana, todos vindos do universo Star Wars.

Tex Galveston Preview

Tex Galveston – Arte do Interior

Finalmente, a Polvo lançou este ano 9 títulos (contra 11 em 2015), num catálogo misto de autores brasileiros, Tex e autores portugueses, mas sempre dentro do género geral de novela gráfica, com algumas excepções.

De salientar a ausência da El Pep, que embora tenha tido um par de lançamentos, não editou nenhum título que se possa classificar como de BD.

No total, este pequeno grupo de editoras foi responsável por cerca de 12% dos lançamentos. Ou seja, houve outros 19% que saíram de outras editoras: editoras mainstream, como a Bertrand, ou Tinta da China, que pontualmente editam BD, pequenos projectos de autor, fanzines, etc…

Arte de Autor: 5 títulos
Bicho Carpinteiro: 2 títulos
Chili Com Carne: 6 títulos
Kingpin: 2 títulos
Polvo: 9 títulos
Planeta: 7 títulos
Total: 31 títulos

Títulos e géneros

É interessante olhar para os tipos e géneros de BD editados, tentando categorizá-los. Nesta análise, há títulos que podem pertencer a duas ou mais categorias, por isso, registem-se as tendências, mais do que os números absolutos.

Autores portugueses

H-Art - Arte do Interior

H-Art – Arte do Interior

Se 2015 tinha sido um ano muito forte para a BD de autores portugueses, 2016 foi em sentido contrário. As editoras tradicionais de BD portuguesa foram muito contidas: a Kingpin apenas teve um lançamento, bem como a Polvo, e a Chili dois, enquanto a Bicho Carpinteiro teve 2 (mistos, já que com desenhadores brasileiros e argumentistas portugueses). A estes somam-se os dois lançamentos da Tinta da China; um na Europress, um na Gradiva, e assim por diante. E temos também o universo mais geral dos fanzines e edições de autor. No total foram 32 lançamentos, repartidos por todos os níveis de lançamento: do romance gráfico de peso (Os Vampiros) aos mini-comics (Altemente ou O Incrível Tarantantan), aos fanzines e às edições da Escorpião Azul. Destacaríamos a existência de várias antologias, incluindo fanzines (H-Alt, Zona de Contacto) e títulos como Crónicas da Comic Con ou Sobressaltos. Fica a sensação de que faltaram mais lançamentos da Kingpin, e a edição de mais livros com a qualidade física a que a editora nos tinha habituado em 2015.

Se excluirmos as edições independentes, o total de livros de autores portugueses foi de 15 livros, 6,5% do total, mas neste caso específico, não creio que se devam excluir as muitas edições independentes, que fazem subir o total para mais de 30 edições.

vampiros

Vampiros – Arte do Interior

Dito isto, Os Vampiros é sem dúvida um dos maiores lançamentos do ano, não só pela qualidade do livro, mas também pelo seu sucesso comercial, que comprova que os autores portugueses concorrem sem grande problema com os lançamentos de livros estrangeiros. Nesta categoria podemos também citar o quarto volume das aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, bem como A Vida Oculta de Fernando Pessoa, como alguns dos títulos de autores portugueses que mais sucesso tiveram durante o ano, e que ombrearam à vontade com as edições de livros estrangeiros, bem como o lançamento de antologias que tiveram importância na divulgação dos autores portugueses, como Sobressaltos, ou sobretudo as Crónicas do Comic Con.

Manga

Nesta categoria, a Devir continua sozinha. Foram 23 livros, repartidos por 5 séries, e se olharmos para a segunda metade do ano, e para o ritmo de lançamento que a Devir manteve nesse período, podemos esperar um aumento forte do número de títulos (e de séries) editados em 2017. Sendo muito liberal, poderíamos acrescentar Terra de Sonhos, de Jiro Taniguchi (Levoir), e subir para 24 o número de lançamentos de autores japoneses (11% do total de lançamentos).

Franco-belga

AS AGUIAS de roma 5 Página 8

As Águias de Roma vol. 5 – Página 8

O franco-belga continua moribundo e praticamente confinado à edição de títulos muito clássicos, sem grande renovação. A ASA continua a ser praticamente a única editora a trabalhar esta categoria de BD, com um ou outro lançamento pontual de outras editoras. Os leitores poderão achar que editar séries franco-belgas com 60 ou 70 anos é o mesmo que editar séries de super-heróis com o mesmo tempo; afinal, Batman e outros heróis da DC também festejaram há pouco 75 anos de idade. No entanto, a renovação constante das personagens, dos argumentistas e desenhadores, e a sua reinterpretação constante para novas épocas, fazem com que seja possível dizer que editar Batman é editar BD contemporânea, de uma maneira que o franco-belga raramente consegue. E quando existem no franco-belga esses títulos renovados, essas reinterpretações (ie. os Spirous de autor, ou o recente O Homem que Matou Lucky Luke), as editoras nacionais não investem nesses títulos. A ASA lançou 27 livros, dos quais apenas um pertence à categoria de BD franco-belga “contemporânea” (As Águias de Roma). Nas outras editoras, o franco-belga brilhou pela sua ausência: chegaram bastantes livros saídos do mercado francês às livrarias nacionais, mas cabem melhor na categoria de “novela gráfica”. Haverá dois títulos na Levoir (A Garagem Hermética e Os Exércitos do Conquistador), dois na Arte de Autor (Druuna e S.O.S. Meteoros) e um na GFloy (O Segredo de Coimbra) que podem ser classificados como franco-belgas, e que elevam a 32 o número de lançamentos nesta categoria: cerca de 15% do total.

Comics

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Daytripper – Arte do Interior

Chegámos a uma das maiores categorias no panorama nacional da BD: os comics americanos. Esta categoria inclui os títulos de super-heróis e as séries fortes das majors (DC e Marvel), e a produção independente de editoras como a Image, Boom ou Dark Horse, que se encontra surpreendentemente bem representada no nosso país. Comparada com a situação que se vivia há uns dez ou quinze anos atrás, o panorama actual representa uma inversão completa de paradigma da BD nacional: que os comics e a BD americana se tenham tornado na categoria principal de banda desenhada, num país que durante anos foi completamente dominado pelo franco-belga, é uma enorme mudança. São várias as editoras que se dedicam à edição de comics: a Planeta, Salvat e GFloy editam exclusivamente (ou quase) comics, a Levoir primariamente (cerca de dois terços dos seus lançamentos), e um terço da produção da Devir é também de comics. Existe alguma ambiguidade na classificação na categoria: Daytripper, é novela gráfica brasileira, ou comic? A História de um Rato Mau é comic, ou BD de autor britânico, apesar de ter sido lançada em formato comic pela Dark Horse? Mas poderíamos dizer que foram mais de 90 títulos de comics editados no nosso país (contra os cerca de 30 representantes de franco-belga), dos quais cerca de metade de super-heróis DC ou Marvel. Mais de 40% da produção actual de BD em Portugal é de comics americanos.

Novela/Romance gráfico

Parque Chas

Parque Chas – Arte do Interior

Esta é a tal categoria ambígua e algo abstracta, em que cabe muita coisa. Não é fácil de classificar todos os livros, e por vezes é tentador dizer como na célebre frase sobre a diferença entre pornografia e erotismo, “não sei explicar a diferença, mas sei o que é quando o vejo”. Poderíamos dizer o seguinte: existe uma percepção crescente da existência de um certo tipo de BD a que se pode chamar de “romance ou novela gráfica” (sem entrar na controvérsia sobre usar uma ou outra designação, ambas válidas na minha altura). Grosso modo, distingue-se pela abordagem de temas mais adultos, mais controversos, mais literários, mais auto-contidos, seja qual for o critério efectivo, mas “sabemos o que é quando o vemos”. Nesta categoria, temos duas colecções expressamente baptizadas com o nome, a colecção da Levoir lançada no Público, que parece poder vir a tornar-se num evento regular anual, e que teve 15 volumes em 2016, alguns dos quais já classificados noutras categorias, o que põe o problema da classificação; por mim, p.ex. um livro como A História de um Rato Mau cabe perfeitamente em duas categorias, novela gráfica e comic, mas se tivesse de optar, optaria pela primeira; mas A Garagem Hermética, que talvez caiba nas de novelas gráficas e na de franco-belga, provavelmente ficaria neste caso na segunda. E temos a colecção Romance Gráfico Brasileiro, na Polvo. É também nesta categoria que se podem classificar a maioria dos livros de BD editados por editoras que normalmente não são de BD: Teorema, Bertrand, Gradiva… E que dizer dum livro como Os Vampiros, classificado em Autores Nacionais? Não será também uma numa novela gráfica? Nesta categoria estão também todos os lançamentos de autores espanhóis que saíram este ano – e foram bastantes e de monta, incluindo volumes de Altarriba, Prado ou Paco Roca, p.ex. – o que parece indicar uma tendência também.

Numa contagem conservadora, e tendendo a não classificar como novela gráfica os casos que podem ser classificados noutras categorias, contamos 24 novelas gráficas, tantos lançamentos como os de manga. Um pouco mais de 10% do total.

Outros

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Baby Blues 33 – Página 2

Existem livros que pertencem a outras categorias. Por definição, todos os fanzines e antologias de autores portugueses ficam simplesmente nessa categoria, embora possam pertencer a outras categorias. Uma categoria que parece ter desaparecido completamente, é a das tiras humorísticas. Três títulos apenas, das séries mais conhecidas (Baby Blues, Zits), um ou outro livro de autores portugueses que caberiam nesta classificação, Cyanide & Happiness e possivelmente Gumball, na Devir, ou alguns dos títulos da Chili Com Carne; possivelmente, pouco mais de meia-dúzia de livros, uma categoria que se tornou irrelevante.

Por categorias, teríamos assim o seguinte, arredondando um pouco as percentagens:

Comic: 41% (90+ títulos)
Franco-belga: 14,50% (c. 32 títulos)
Autores portugueses: 14,50% (c. 32 títulos)
Manga: 11% (24 títulos)
Novela gráfica: 11% (c. 24 títulos)
Outros (?): 8% (pouco mais de 20 títulos)

São números que tornam o panorama de BD irreconhecível para alguém que viveu o período 2000-2005, por exemplo. Neste momento, Portugal é um país em que se edita comics americanos com qualidade, e em que as edições de autores portugueses são suficientes para serem equivalentes à produção de franco-belga (embora, claro, a qualidade e formato sejam muito diferentes). De modo geral, poderíamos dizer que tirando o comic americano, todos os outros géneros (manga, portugueses, novelas gráficas) são mais ou menos igualmente representados.

Edições de autor/independentes/fanzines

Esta “categoria” merece uma menção especial. É uma categoria difícil de definir, e na minha análise privilegiei dois factores: tiragens, que na maioria dos casos são inferiores a 500 exemplares (e que em muito casos se ficam pelos 50, 100 ou 200), sendo que 500 me parece ser a tiragem mínima para que um livro possa ser considerado como uma edição comercial (embora haja casos pontuais de edições independentes com tiragens desta dimensão); e o livro ter ou não distribuição nacional, e não estar apenas disponível em algumas poucas livrarias, e em festivais. Aqui também existe alguma ambiguidade, porque existem projectos comerciais que vendem apenas na Fnac e nalgumas outras livrarias, mas de modo geral é fácil de fazer a distinção. Nesta categoria entram também alguns projectos institucionais, que podem até ter tiragens razoáveis, mas que não têm intuito comercial directo, nem distribuição a nível nacional.

Altemente

Altemente – Arte do Interior

Esta categoria é ao mesmo tempo importante, e não-importante. Por um lado, é uma categoria que é largamente irrelevante para o mercado de BD no seu todo, no geral. Com tiragens por vezes mínimas, são títulos que raramente chegam a mais do que algumas (poucas) centenas de fãs “hardcore” (por vezes algumas dezenas apenas), e geralmente apenas se vendem e aparecem nos festivais: Beja BD, Amadora BD e Comic-Con. Mas por outro lado, é uma categoria que serve de laboratório de experimentação e de lançamento de autores portugueses, e que é por vezes reconhecida explicitamente; p.ex. o festival da Amadora premeia sempre um título deste grupo, e este ano o Comic Con premiou um mini-comic (Altemente) com um dos seus Galardões.

Dentro desta categoria merece menção especial o caso da Escorpião Azul, que pelo número de lançamentos (6 livros), e pelo seu formato e razoável qualidade física dos volumes, está numa zona cinzenta, já quase perto de fazer a transição para o grupo das editoras pequenas. Mas o facto de trabalhar ainda com tiragens muito pequenas, e não ter uma distribuição que permita encontrar os títulos para além do círculo restrito dos eventos e de umas poucas livrarias especializadas, fazem com que este ano ainda esteja incluída nesta categoria. Outro caso de realce é o da Comic Heart, que com o formato mini-comic, obteve assinalável sucesso com a mini-série Altemente, e parece ter apostado em lançamentos regulares. Nesta categoria estão também incluídas algumas edições institucionais.

Algumas considerações adicionais

santo antónio

Santo António em Banda Desenhada – Capa

É de realçar o papel das bancas na actual distribuição de banda desenhada no nosso país. Em primeiro lugar, as colecções: a ASA editou 22 títulos no âmbito de colecções com o jornal Público, enquanto a Levoir lançou 44 títulos (dos quais 3 como “pontuais”, ie. fora de colecções, mas com o jornal). Se acrescentarmos a isso um último lançamento (Santo António, da Europress), são 67 livros lançados com o Público: 30% do total de lançamentos de BD no nosso país passa hoje pelo jornal Público. Para além disso, a Salvat edita exclusivamente para bancas, o que significa que se incorporarmos os seus 26 lançamentos nos anteriores (subindo para 93 o número de lançamentos em bancas) podemos dizer que um pouco mais de 40% do total de BD no nosso país tem lançamento mais ou menos exclusivo em bancas. E é de salientar que as outras duas editoras do grupo da frente, Devir e GFloy, têm bastante presença nas bancas, tornando este canal bastante importante em Portugal. Em percentagem de livros vendidos – ou de facturação – é quase certo que as vendas que passam por bancas são muito superiores.

Se é verdade que ainda se nota uma maior actividade editorial nos meses dos nossos grandes festivais – Maio/Junho para Beja, Outubro/Novembro para a Amadora e Dezembro para o Comic Con – na verdade o mercado parece ter-se tornado muito mais regular e homogéneo, com lançamentos mesmo em Agosto, p.ex. (11 títulos editados nesse mês!). Com 202 lançamentos (aqui excluindo os fanzines, edições de autor, etc…) estamos nos 16/17 lançamentos por mês em média, o que é um ritmo bastante razoável, se considerarmos que vínhamos provavelmente de umas poucas dezenas de lançamentos por ano no período anterior a 2013-2015.

Talvez a maior diferença entre o mercado actual e o de há uma dezena de anos atrás seja resumido da seguinte maneira: uma grande diversidade de títulos e géneros editados, em que já não parece predominar nenhum tipo de BD à exclusão das outras, em que o número de editoras aumentou significativamente, e em que parece ter-se aberto um espaço razoável para as pequenas editoras e edições de autor, fanzines, etc…

A Coleção Oficial de Graphic Novels 31 Justiceiro

Justiceiro: Bem-Vindo de Volta, Frank vol. 2 – Página 4

Claramente, e comparando com o período que conheci há uns anos atrás na minha qualidade de editor da Devir, o número de lançamentos parece ter aumentado razoavelmente – creio que será pelo menos 40-50% superior ao melhor ano do período 2000-2005 – mas as tiragens parecem ter colapsado completamente, por factores enormes: são entre um quarto e metade menores do que as anteriores, no caso de edições para livrarias, e provavelmente umas 5 vezes inferiores nas colecções com jornais, embora neste caso não seja fácil a comparação, porque os preços, os formatos, o tipo de colecções mudaram muito. A pergunta que todos os leitores farão é sem dúvida esta: existe mercado para a variedade e quantidade de títulos que se lançam hoje em dia em Portugal?

Se olharmos para 2017, perfila-se um continuado aumento das edições de BD. Nalguns casos não haverá uma progressão muito grande. Levoir e ASA parecem ter atingido um limite do número de semanas disponíveis no Público, e para além da possibilidade de um pequeno aumento dos lançamentos feitos directamente para livrarias, não se adivinha um aumento muito grande. O mesmo no caso da Salvat, claro, que trabalha exclusivamente com a colecção Oficial de Graphic Novels Marvel. Mas p.ex. olhando para o ritmo de lançamento de manga na Devir na segunda metade do ano, e considerando que já estão anunciadas novas séries, não é impossível que o número de mangas editado suba para 30-35, o que tornaria a Devir na maior editora de BD do país, mais ou menos ex-aequo com a Levoir (em número de títulos lançados, é claro), com possivelmente 40-45 livros. Também a GFloy já anunciou a sua vontade de aumentar o número de lançamentos para 25-30 este ano, e muitas das pequenas irão também lançar mais livros, sendo que o caso maior será certamente a Kingpin que poderá voltar aos 6 ou 7 lançamentos anuais. Se admitirmos uma manutenção, ou ligeira progressão das outras editoras pequenas, não seria impossível que tivéssemos em 2017 mais de 250 lançamentos, ou seja, mais de 20 por mês. Um aumento de 10%, que pode até ser de mais do que isso.

Hora de Aventuras - Cartoon Network

Hora de Aventuras Vol. 2 – Arte do Interior

Pessoalmente, a minha opinião é que estamos a trabalhar neste momento com uma espécie de “mínimo denominador comum” de fãs e leitores de BD: batemos no fundo há alguns anos atrás, e durante algum tempo houve apenas um grupo de leitores hardcore activos na compra de BD, os indefectíveis. 5000? 10,000? Não é possível quantificar, mas parece claro que de há dois, três anos para cá, se assiste de novo a uma progressão do número de fãs e de compradores, e houve projectos que chegaram a outros públicos. É o caso nomeadamente das colecções de Novelas Gráficas da Levoir, que claramente mobilizaram leitores que normalmente não compravam BD, ou tinham abandonado esse hábito, e de alguns dos lançamentos juvenis da Devir, que parecem estar a chegar a novos leitores também.

A segunda sensação que tenho neste momento, é que com algumas excepções, o crescimento actual em edições parece ser razoavelmente “orgânico”, e sobretudo, em termos de tiragens, muito inferior ao que foi há dez, quinze anos atrás. O número total de livros “impressos” continua provavelmente a ser bem inferior ao que se atingiu na altura, e a diversidade dos títulos (e maior número de editoras) parece significar um risco mais espalhado e mais diminuto. Neste âmbito, a diminuição dos preços de impressão oferecidos pelas gráficas e a disponibilidade para trabalhar com tiragens pequenas teve um papel absolutamente essencial. Se há quinze anos tivesse pedido a uma gráfica que me fizesse um orçamento para imprimir 1000 exemplares de um livro a cores, tinham-se rido na minha cara, quanto mais para 500 ou 700. Hoje em dia, no entanto, é possível a uma Kingpin, p.ex., imprimir 500 exemplares de um álbum a cores, de capa dura e boa qualidade, e vendê-lo a um preço que os leitores comportam. Ou à GFloy imprimir 1200-1500 de alguns títulos, em edições de capa dura a cores, com 128 ou mais páginas. Isto também significa que se algum título falhar redondamente, o risco é pequeno. Ter de vender 600 exemplares para rentabilizar uma edição de 1400 e só vender 450 não é um desastre.

Sobressaltos - Terror por Autores Portugueses de BD

Sobressaltos: Terror por Autores Portugueses de BD – Capa

Assim, à partida diria que o crescimento que vivemos parece ser razoavelmente sustentado, em projectos que não são de tiragens enormes, e que não constituem riscos grandes. As colecções com o Público constituem uma excepção a esta análise, mas na verdade, o ano de 2016 parece ter representado o universo que elas poderiam comportar (ou perto disso) tendo em conta o número de semanas que existem disponíveis no jornal; claro, se outro jornal entrar nesta onda, ou se as editoras aumentarem muito a produção directa para livrarias, as coisas serão bem diferentes. Será necessário esperar pelos próximos meses para ter uma ideia real da evolução do mercado, mas neste momento, e a menos de alguma crise que afecte muito os hábitos de consumo, mantenho um optimismo reservado, e acho que devemos agradecer estes últimos dois anos, que foram sem dúvida dos melhores de sempre na BD em Portugal.

Na segunda parte deste artigo, irei abandonar a análise mais “quantitativa”  e fazer uma análise mais qualitativa e mais pessoal, concentrando-me naqueles que foram os momentos mais marcantes do ano editorial, nos melhores livros e mais interessantes projectos, nos festivais e eventos, e nalgumas outras tendências do ano de 2016.

[ editado para corrigir um erro: a Kingpin editou o livro O Incrível Tarantantan de Balbino o Esfutricador, um mini-comic de autores portugueses, que estava classificado na categoria de edições de autor. 10/01, 13:30 ]

Clica aqui para descarregar a listagem dos lançamentos de 2016

José de Freitas


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Uma vista de olhos ao livro da Planeta “Star Wars Darth Vader Vol. 2”. De Kieron Gillen, Salvador Larroca e Edgar Delgado. Estes vídeos são para mostrar aos leitores livros de banda desenhada que poderão encontrar à venda em Portugal.