Cinema: Crítica – O Fantástico Homem Aranha 2 (2014)

fantastico homem-aranha 2 posterÉ difícil não começar por dizer que fui um dos casos raros a gostar do Homem Aranha 3 (ninguém disse que era um filme perfeito) e um dos poucos a não perceber porque é que o reboot de 2012 recebeu tanto entusiasmo. Não ajuda existir dentro e fora de mim um enorme fã do Sam Raimi, mas achei que o realizador Marc Webb nunca conseguiu encontrar uma voz ou um tom único para distinguir o filme de qualquer outra adaptação da Marvel ou torná-la memorável.

E se colocar os meus óculos cínicos na cara, posso sempre dizer que a Sony só fez o filme para os direitos não irem bater às portas da Marvel depois de o quarto filme ter ido para os porcos. Mas independentemente de encontrar os meus óculos ou não, a verdade é que seria quase impossível o tal reboot não fazer uma modesta quantia digna de invejar um Gordon Gekko.

E porque o dinheiro nunca dorme e a Sony também não, chega-nos às salas O Fantástico Homem-Aranha 2: O Poder de Electro, com Marc Webb a sentar-se novamente na cadeira de realizador, e com ele volta também a maior parte do elenco (incluindo Andrew Garfield e Emma Stone) e adicionam-se ainda umas surpresas à mistura (infelizmente o regresso de Bruce Campbell não é uma delas).
Peter Parker (Andrew Garfield) continua a sua vida como estudante e como Homem Aranha pela cidade de Nova Iorque, enquanto cruza caminhos com a Oscorp e com o seu velho amigo Harry Osborne (Dane DeHaan), com o Electro de Jamie Foxx tentando ainda balançar a sua relação com Gwen Stacy, sem esquecer o misterioso passado dos seus pais e tendo ainda tempo para trocar uns momentos com o Rhino de Paul Giamatti.

Os meus sentidos de aranha dizem-me que já vi este problema em algum lado, não já? Eu sei que foi em 2007 e envolvia areia e qualquer coisa preta e viscosa, mas sinceramente não me consigo lembrar do nome do maldito filme. Seja como for, esta última aventura da Marvel sofre em parte dos mesmos problemas, incluindo uma batalha final em pelo fraco desenvolvimento sabe a pouco.

O Green Goblin, embora interessante e diferente do que vimos antes pela mão da dupla Dafoe/Franco, é aqui como uma bola de pinball que acerta nuns buracos mas que rapidamente desaparece. O Rhino, se o quisermos contar como vilão, não é praticamente mais que um cameo. E para um vilão que está no subtítulo do filme, o Electro é tão pouco desenvolvido que faz o Eddie Brock parecer um Hans Gruber, em comparação.

star wars o lobo mauMas o mais amazing no filme é o facto de pegar na história secundária dos pais de Peter e transformá-la no tradicional jogo de conveniência, por exemplo: personagem A está irritada, logo faz qualquer coisa ao acaso que a faz descobrir o ponto fulcral para o mistério por detrás da personagem B. Mas esta mesma personagem A chega lá por acaso atrás de acaso, só porque alguém escreveu que assim o seria no argumento.
E não quero parecer demasiado cruel para com o filme, porque o elenco (à excepção de Sally Field de quem eu ainda não consigo ver como a doce Tia May) continua a ser um ponto forte.

Claramente, Garfield e Stone têm química, Dan DeHaan é surpreendentemente ameaçador e mesmo com um papel pequeno, Paul Giamatti é um prazer de ver com um puro sotaque estereotipado russo (tirando o lugar ao lendário Iron Shiek).
Não devemos esquecer, por último, algo tão subjectivo e importante como a banda sonora, desta vez da autoria de Hans Zimmer (em que o tema mais interessante foi o toque de telemóvel do Peter) que fez 3 coisas: 1 – transformou a batalha final num assalto digital interrupto para todos os sentidos; 2 – contribuiu com um horrível tema para o vilão principal e 3 – acentuou o tom de indiferença que o filme tem no seu ADN (podes voltar, velho amigo pelo nome de Danny Elfman).

Tinha as minhas dúvidas se não foi o fanboy Raiminiano em mim a rejeitar o filme anterior, mas esta sequela veio confirmar que a mesma voz inconsistente do primeiro persiste e que a Marvel pouco tirou da emo trip de 2007.
O mais impressionante foi eu não ter feito nenhum comentário em relação ao apelido do realizador, mas guardo esse trabalho para o grande J. Jonah Jameson…

2/5

Tiago Laranjo