BD: Entrevista a César Espona (Director da Netcom2)

fnac madridÉ já amanha, 18 de Dezembro, que saem os dois primeiros álbuns da Netcom2 em Portugal, e o Central Comics aproveitou para fazer umas perguntas ao director espanhol.

Através das redes sociais, o CC falou com fãs de banda desenhada e leu as suas dúvidas referentes a esta editora recém-chegada ao nosso país e as quais reformulamos as melhores e as apresentou a César Espona, que com todo o prazer respondeu num par de dias. As fotos que apresentamos aqui refere-se a uma apresentação da editora numa Fnac em Madrid no dia 1 de Dezembro, e as últimas duas em Valência, no dia 14.

Central Comics – Olá César. Antes de mais um muito obrigado pela simpatia e prontidão com que acedeste ao nosso pedido de entrevista. E começamos por uma questão muito simples. Qual o segmento de mercado que a Netcom2 pretende atingir com os títulos anunciados?

César Espona – O mesmo segmento que em Espanha. Os aficionados da BD franco-belga em geral. Neste segmento contam-se muitos fãs que viveram a sua juventude e que cresceram com os heróis clássicos da BD, mas também se juntaram muitos outros fãs que não eram tradicionalmente seguidores da BD, mas que gostam de boas histórias.

CC – Esse é o segmento do qual actualmente se pode afirmar como sendo o único com poder de compra para adquirir bd, em tempos de crise?

CE – Sim, na sua maioria. O aficionado médio de BD europeia é um homem com mais de 40 anos que pode manter, de vez em quando, um passatempo como é a leitura de banda desenhada. De qualquer das formas, estamos a conseguir (pelo menos em Espanha) que se juntem uma série de fãs da história bem documentada (com as colecções de Jacques Martin, Vasco, entre outras) que antes não tinham fãs. Surpreende-nos também o número de mulheres, e outros aficionados mais jovens, que rodeiam o universo da BD, tudo isto graças às séries como Vinci, Ella Mahé ou Yoko Tsuno.

CC – Os leitores da banda desenhada estão a envelhecer e correm o risco de desaparecer aos poucos?

CE – Em parte a minha resposta anterior responde um pouco à tua pergunta. De todas as formas, não é o suficiente para assegurar o futuro da BD entre os mais jovens. Nos últimos anos, em Espanha, considerou-se a BD uma leitura menor, que é apenas para os nostálgicos e para crianças. Desprestigiou-se muito a BD. Neste sentido, invejo muito a forma como se vive a BD em países como a França ou a Bélgica, onde os cartunistas são considerados artistas privilegiados e a BD faz parte da cultura de qualidade, que também ajuda a divulgar e a manter a língua.

CC – Porque é que a Netcom2 explora apenas o estilo de BD franco-belga de linha clara? Há possibilidade de publicação de outro género de BD, que possa agradar a segmentos mais novos?

CE – Não há uma razão especial. Nem sequer uma razão de estratégia. A editora nasceu como um impulso de uns aficionados da BD, que amávamos a linha clara. Publicamos BD de linha clara porque é o que mais gostamos.
Depois, observamos que havia um défice deste género nas livrarias espanholas, e assim continuámos.
Dentro da BD europeia começámos, efetivamente, a alargar a oferta a outras séries que não são exatamente de linha clara como a Ella Mahé (um relato delicioso e romântico de J.F.Charles) ou Alix Senador (que gostaríamos também de publicar em português mas não foi possível).

CC – Porque é que uma editora espanhola decidiu apostar num país ainda mais em crise que a sua terra Natal e num mercado tao pequeno como o português?

CE –Essa pergunta é ainda mais profunda do que parece à primeira vista.
Na realidade todos estamos em crise e, sem entrar em questões políticas, segundo a minha opinião, em Portugal assumiram que os tempos mudaram e fazem a gestão do problema de uma forma mais responsável. Aqui (Espanha), no entanto, muita gente ainda não tomou consciência de que os tempos do desperdício e dos abusos terminaram. E isso torna-nos mais vulneráveis.
Por outro lado, é curioso que vocês vejam o vosso mercado como pequeno quando aqui, em Espanha, sempre admirámos Portugal pois temo-lo como um país onde historicamente a BD sempre foi bem aceite. Todos invejamos a publicação da revista Tintin em português de onde saíram tantos heróis da BD, que aqui não se publicaram nunca.
Desejámos durante muito tempo que tivesse existido em Espanha uma editora com as Edições 70 que publicasse os títulos de Alix que nós nunca vimos em espanhol, ou como Edinter que ousou publicar Vasco, entre outros.
Precisamente com este espírito nasceu a NetCom2 e por sorte podemos recuperar, em Espanhol, alguns desses clássicos dos quais vocês puderam usufruir.
Porém, porque não apostar em publicar colecções num país que foi historicamente uma referência, tão próxima, da BD?
Pode até ser mais pequeno em número de habitantes mas não em aficionados. Prova disso, é o enorme mercado segunda mão, que funciona muito bem. Eu mesmo já comprei exemplares de grandes clássicos da BD nos mercados e nas ruas de Lisboa. Em português, claro, porque aqui nunca se publicaram!

CC – Umas curiosidades mais técnica mas bastante interessantes para muita gente interessada, que não sei se querem ou podem revelar, mas são perguntas que têm de ser feitas. Os livros são impressos em co-edição? E estamos a falar de tiragens de quantos exemplares para Portugal?

CE – Em alguns casos, imprimimos os livros em português ao mesmo tempo que a edição espanhola, pois é muito mais económico. De qualquer das formas, alguns títulos fazemos uma impressão independente pois já foram publicados em Espanha, como é o caso de Margot.
As tiragens são, evidentemente, muito pequenas, pois preferimos assegurar a publicação completa de todas as coleções e não deixá-las a meio, em vez de fazermos um grande investimento e arriscarmo-nos a não vender. Estamos a falar entre 500 a 700 exemplares,

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dependendo da série.

CC – A distribuição de livros no nosso país está um caos. Como resolveram esta situação? Fazem distribuição directa apenas?

CE – Contamos com a valiosa ajuda do nosso manager português Jorge Fernandes, que conhece bem o mercado e a maneira de chegar aos fãs. A distribuição fazemo-la nós mesmos, através da internet, de outros sites de leilões, blogues amigos e das livrarias colaboradoras que vão vender os nossos livros e distribuir a nossa revista bimensal gratuita.

CC – O que difere a Netcom2 de outras editoras portugueses, para além das séries novas?

netcom2CE – Penso que o que melhor define o trabalho que fazemos (também em Espanha) é que só publicamos livros dos quais gostamos, aquelas coisas que eu mesmo compraria se outra editora as publicasse. Antes de sermos editores, somos fãs.
No que respeita ao aspecto técnico, acredito que contamos com um serviço de atenção ao cliente que está muito acima do que oferecem outras editoras em Espanha. Isto inclui a gestão eficaz de subscritores, compras online e incidências e também de um contacto permanente com os fãs através de notícias do site, de um sistema informático que permite o acesso directo a todas as colecções através da internet com facilidade, e de uma revista gratuita que oferece BD, antevisões e algumas reportagens.
A transparência é também uma qualidade que nos caracteriza. Temos claro que não é justo cortar colecções (algo muito habitual aqui), pois considero que é uma falta de respeito para com os fãs que compram os primeiros volumes.
No nosso caso, preferimos ir pouco a pouco e assegurar que as colecções que começamos também as terminamos.

CC  As parcerias com jornais têm tido bons resultados em Portugal. Isso passa pelos vossos planos?

CE – De momento não estudamos essa opção.

CC  Que reacção espera do público português?

CE – Queremos apenas que usufruam das BDs que publicamos, pelo menos tanto como nós usufruímos em prepará-las.

Entrevista conduzida por Hugo Jesus, sob perguntas propostas por fãs.