BD: Crónica – Os Sons da BD

Punk Planet Magazine nº 46, 2001, capa de Jaime Hernandez com Maggie e Hopey da série Love and RocketsNestas crónicas semanais, irei relacionar estas duas artes, que fazem diariamente parte da minha vida. Não passo um dia sem ouvir Música assim com não passo sem, pelo menos, folhear uma BD.

Integral as its architecture are the sounds of the city. Na endless symphony, unique toit as are its smells
Will Eisner, New York, Life in the Big City, W. W. Norton & Company, 2006, pág. 53

Maggie e Hopey numa biblioteca cantam Six Pack, uma música dos...Música e banda desenhada sempre se cruzaram ao longo dos anos, quer seja de forma mais literal – adaptações para BD de obras musicais, de biografias de músicos, grupos ou momentos na história da Música, ou no sentido inverso, inspirações na BD para a composição de álbuns musicais, letras ou conceitos de bandas – ou de forma mais abstracta – o modo com a composição na Música se relaciona em paralelo com a composição na arte sequencial ou mesmo ao nível puramente sensorial, em estímulos auditivos e visuais.

Black Flagg incluída no álbum Damaged de 1981Desde logo vários grupos musicais partilham o nome com personagens de comics: ThorOdinBlack WidowWaspVisionIsisDemonRavenThin LizzyDr Strangely Strange e os indispensáveis Warlock. E se tematicamente a maior parte têm pouco em comum, é inegável que quando se ouve a banda inglesa Love and Rockets a sua sonoridade de rock alternativo remete-nos logo para a série de comics de mesmo nome que lhes serviu de inspiração. Criada por Jaime, Gilbert e pelo muitas vezes injustamente esquecido Mario Hernandez, Love and Rockets é considerada uma das primeiras e melhores séries na cena alternativa dos anos 80.

Johnny Cash: I See A Darkness, Reinhard Kleist, SelfMadeHero, 2009Expostos nas paredes e muros das cidades, os cartazes de bandas com sonoridades mais pesadas do Rock, Punk e Heavy Metal fazem uso recorrente do imaginário, e mesmo de personagens, da BD. O conceito do-it-yourself (DIY) da música punk é usado na criação de fanzines de diversas temáticas, sendo a sua maioria sobre BD… e Música. ManowarAmon Amarth e Bathory, entre muitas outras banda de metal, retiram (ou retiravam) a inspiração das lendas nórdicas ou de universos bélicos, onde a coragem, a força e a honra são atributos reverenciados tal como nos livros e comics de Conan, o Bárbaro.

Foram igualmente editadas diversas adaptações, mais ou menos reais, de grupos famosos como os Beatles, os Sex Pistols ou os Kiss e de cantores populares de vários géneros musicais com Jonnhy CashAlice The Sinister Ducks, single duplo (45 rpm, vinyl), Beggars Banquet, 1983Cooper ou Prince. Chegou mesmo a ser criada uma editora, a Revolutionary Comics, que publicava a série Rock ‘N’ Roll Comics, onde foram biografados; Frank ZappaGuns n’ RosesBon Jovi, Mötley Crüe ou os Metallica. Em Portugal a colecção BD Pop Rock Português, de 2011, seguiu os mesmos moldes mas com resultados gráficos, de vários autores nacionais, de qualidade muito superior.

Diversos criadores partilham igualmente o gosto e desenvolvem projectos nas duas artes, sendo o mais famoso  o genial Alan Moore, primeiro com os Mystery Guests (banda de suporte para os primeiros concertos dos Bauhaus), depois com os Sinister Ducks, juntamente com David J e Alex Green, cuja capa do primeiro e único single foi desenhada por Kevin O’Neil, e no seu interior foi incluída uma banda desenhada que adapta uma das músicas, Old Gangsters Never Die, da autoria do Lloyd Thatcher. E muito mais… Como todos os projectos em que Moore se envolve dão extensos textos, fica então para crónicas futuras os seus outros projectos.

Metal Hurlant, Hors série Special Rock 83, Les Humanoïdes Associés, 1983Como se pode constatar, o tema é vasto e os cruzamentos tão diversos quanto os seus autores.

Sugestão de leitura:
Alpha Flight nº 6, John Byrne, Marvel Comics, 1984

Sugestão de audição:
4′33″ – Four minutes, thirty-three seconds, John Cage, 1952

Até para a semana!
André Azevedo