23ª AmadoraBD – Tema Central: Autobiografia na BD

poster amadora 2012O tema central da 23ª edição do AmadoraBD é a Autobiografia. Este assunto será, devidamente, abordado no catálogo oficial do Festival e objeto de uma exposição comissariada por Pedro Moura, no Fórum Luís de Camões, o núcleo central do evento. Clica nas imagens para ampliar.

Na exposição serão apresentadas documentos, publicações, pranchas e ilustrações originais dos vários autores que têm trabalhado este tema e que foram gentilmente cedidas por museus, galerias de arte e colecionadores particulares.
Por isso um agradecimento especial ao Museu de Banda Desenhada de Angoulême (França), aos Achives Szukalski, Los Angeles (EUA), à Fantagraphics e a Bernard Mahé (França).

©Alison Bechdel (2012) Are you my MotherA Autobiografia
por Pedro Moura

“A autobiografia é um género que no modo de expressão da banda desenhada se consolidou por volta dos anos 1960, quer nos Estados Unidos, sobretudo com os autores afectos ao movimento dos underground comix, quer em França com pequenas experiências pelo humor irrisório de Gotlib, Mandryka, Gire ou mesmo Jean Giraud.
Existem exemplos que podem ser colhidos ao longo da história da banda desenhada, e no caso português a ©David B (1999), L'ascension du Haut Mal 4menção de Rafael Bordalo Pinheiro não seria, como sempre, descabida. Contudo, enquanto género próprio, ou até possibilidade de criação, apenas emerge na contemporaneidade.
Autores como Justin Green, Robert Crumb, Aline Kominsky, Edmond Baudoin, Carlos Giménez, Keiji Nakazawa e Harvey Pekar são fundamentais e influentes na abertura dessa possibilidade.

©Justin Green (1972) , Binky Brown meets the Holy Virgin MaryOs anos 1990, mais uma vez nos três pólos principais da produção de banda desenhada global (França, Estados Unidos e Japão) marcariam uma viragem e exposição substancial: aí poderíamos destacar nomes tais como Seth, Chester Brown, David B., Julie Doucet, Jean-Christophe Menu, James Kochalka, Fabrice Neaud, Debbie Drechsler, Howard Cruse, Marjane Satrapi, Craig Thompson, Alison Bechdel, entre tantas outras possíveis referências num universo muito alargado.
Portugal, por todas as vicissitudes e especificidades da sua história particular da banda desenhada, tem uma presença no campo da autobiografia mais tímida, mas não seria errado pensar nos nomes de Fernando Relvas, Alice Geirinhas e Ana

©Marco Mendes (2007), Superbacana

Cortesão nesse balanço. Mais recentemente, autores como Marcos Farrajota e Marco Mendes exploram esse território de um modo explícito e criativo.

Tendo em conta que a história da banda desenhada, sobretudo no século XX, foi ocupada sobretudo por géneros infanto-juvenis e associados a géneros fantasiosos, escapistas ou delimitados por regras de expectativas mercantis, a autobiografia foi um dos géneros que mais e melhor contribui para uma sua abertura e desenvolvimento cultural.

Quer dizer, a paulatina mas assegurada consolidação da banda desenhada como uma arte ou modo de ©Art Spiegelman (1ª versão, 1972), Mausexpressão passível de ser empregue para quaisquer fins, narrativos, artísticos, estilísticos, políticos ou filosóficos, que sejam desejados pelos autores, encontrou nesse género em particular uma das vias de expansão. É aí que encontramos um contributo decisivo para o aparecimento de editoras alternativas dedicadas à produção não apenas de revistas mas de livros (a canadiana Drawn & Quarterly e a francesa L’Association poderão servir de exemplos maiores), e que influenciariam igualmente editoras mais tradicionais, assim como é graças a esses novos autores e essas obras que a banda desenhada ganha um espaço mais digno e crítico na recepção crítica cultural, levando mesmo à sua inclusão em prémios literários prestigiados, bolsas de desenvolvimento artístico, residências, convites aos autores para participarem em encontros transdisciplinares, já para não falar do enorme ímpeto que deram aos estudos académicos de ©Marjane Satrapi (2000), Persepolis 1banda desenhada.

A mostra que o AmadoraBD agora leva a cabo tentará fazer um retrato do desenvolvimento deste género, dar conta da sua diversidade interna, revisitar alguns dos seus nomes principais e revelar alguns dos novos artistas. Sendo um dos principais campos da banda desenhada contemporânea, o Festival apresenta assim, a um só tempo, um balanço do que se passou e um relançar das questões para o futuro.”