Críticas Curtas: Maria e Eu, Persépolis, História da Santa Casa da Misericórdia do Porto Vol. 3, Spirou e Fantásio – QRN sobre Bretzelburgo.

Começo aqui uma subcategoria da secção “críticas”, para a dedicar inteiramente a edições nacionais. Este será um espaço de opinião sobre lançamentos de BD, de uma pessoa que tem pouco tempo para escrever para pessoas que têm pouco tempo para ler.

Por isso, em traços muito gerais e concisos, evitando os resumos das histórias e dados técnicos (para isso deixo o link para o artigo sobre o seu lançamento), irei dizer o que acho do que se vai publicando aqui no Burgo.

Começo com um álbum que me surpreendeu.
Apesar de, dentro da banda desenhada de autor, Miguel Gallardo poder ser conhecido, confesso que não sabia quem ele era. Por este motivo, sendo uma BD graficamente pouco apelativa à primeira vista, confiei no bom gosto na Asa e no cuidado que tem no seu catálogo. E não fiquei defraudado. Maria e Eu é até mais do que um álbum de BD – é simultaneamente uma carta de amor que o autor dedica à sua filha e, ao mesmo tempo, um guia sobre o autismo. De forma ternurenta, ficamos a saber mais sobre esta condição especial, ao mesmo tempo que viajamos com Miguel e Maria numa doce viagem de Férias a Gran Canaria. Uma leitura muito agradável.
O pior: quem gosta de BD pura a dura poderá ficar desapontado com este livro, pois metade dele não tem arte sequencial.
O melhor: o ensinamento que nos dá sobre o autismo, contado de uma forma leve e divertida.
+ info: http://www.centralcomics.com/2012/03/21/lancamento-maria-e-eu/

Spirou vol. 18 – QRN sobre BretzelburgoJá não lia um álbum de Spirou desde “A Máquina que Sonha”, que foi ainda editado pela extinta Meribérica e de que, apesar das más críticas (por desvirtuar bastante a criação de Franquin), gostei bastante – e antes desse teríamos de recuar uns bons 20 anos. Foi com um sentimento nostálgico que comecei a ler o álbum As Aventuras de Spirou e Fantásio – QRN sobre Bretzelburgo e com a expectativa de sentir a mesma emoção que tinha nas leituras de outros tomos nos anos 80. Infelizmente, esse sentimento não esteve presente. Penso que, ao contrário de Tintin, Lucky Luke ou Asterix, Spirou e Fantásio não conseguiu manter, pelo menos neste álbum, a frescura que estes outros ainda possuem nos nossos dias (em breve vou dedicar um “críticas curtas” a alguns álbuns de Tintin). Será por isso que os autores que seguiram Franquin fizeram coisas tão diferentes?
A história até tem alguns gags bem conseguidos, mas num todo achei-a um pouco “pastelona”. Não havia argumento suficiente para encher tantas páginas e, por isso, a partir de certo ponto torna-se maçadora.
O pior: poderá aborrecer os adultos (a mim aborreceu).
O melhor: a arte de Franquin e uma boa leitura para crianças e jovens adolescentes.
+ info: http://www.centralcomics.com/2012/05/25/lancamento-spirou-%E2%80%93-qrn-sobre-bretzelburgo/

O nome diz tudo. A História A História Santa Casa da Misericórdia do Porto em Banda Desenhada Vol. 3 da Misericórdia do Porto em Banda Desenhada Vol. 3 não é mais do que isso. Este projecto, dirigido por Germano Silva, é a tentativa de revelar aos jovens os 8 séculos de história desta instituição duma forma mais agradável e ligeira do que através de um livro maçudo de prosa. Como todos os livros de “história em BD”, os textos são maioritariamente descritivos e tudo se desenrola sem acção ou emoção. Pedro Pires, como sempre, faz uma arte belíssima de ver e apreciar, apesar de, em alguns casos, parecer que a imagem foi ampliada ao seu traço original. Dizer que é BD também poderá não ser inteiramente verdade, pois a arte sequencial praticamente não existe. Do ponto de vista do livro físico há pontos positivos e negativos a salientar. O álbum tem bom corpo. A alta gramagem do papel faz criar um bom volume ao livro, que, apesar da capa dura possui alguma escassez de páginas (apenas 32), o que se poderia revelar um problema. No entanto as páginas têm brilho em demasia, o que pode tornar irritante a sua leitura, principalmente em interiores, pois obriga-nos a ir inclinando o livro para desviar o “barulho das luzes”. Outro ponto menos positivo é a balonagem/legendagem, que infelizmente é um problema recorrente na BD portuguesa. Como sempre, os editores não percebem a importância que este ponto tem num todo, e consegue mesmo tirar algum brilho a uma edição bonita. O preço é agradável. Apenas 5€!
O pior: a legendagem e o brilho excessivo do papel.
O melhor: o que aprendemos e a arte de Pires.
+ info: http://www.centralcomics.com/2012/05/09/antevisao-historia-da-santa-casa-da-misericordia-do-porto-em-banda-desenhada-vol-3/

PersépolisE termino com o melhor dos 4 livros de hoje. Já muito (e bem) se falou de Persépolis e o facto de ainda não o ter lido até ao recente lançamento em português da Contraponto era uma falha minha – falha essa já colmatada e ainda bem. A obra de Marjane Satrapi é, sem dúvida, de leitura obrigatória. Não só derruba por completo toda a ideia errónea que se poderá ter acerca do povo iraniano, como ainda nos conta uma fabulosa história de vida. O desenho minimalista de Satrapi é o suficiente, pois apesar da falta de imagens fabulosas e de detalhe impressionante, a arte sequencial e o conjunto arte/argumento é perfeito. Devia haver apenas dois tipos de leitores de BD: aqueles que já leram o Persépolis e aqueles que ainda vão ler o Persépolis.
O pior: ter demorado tanto tempo até sair a obra completa em Português.
O melhor: tudo o resto.
+ info: http://www.centralcomics.com/2012/04/02/lancamento-persepolis/

E por hoje é tudo. Voltarei em breve com mais críticas de poucas linhas!

Hugo Jesus