Crítica: Corto Maltese na Sibéria

corto maltese na siberia capaEsta edição traz-nos uma forte componente visual que nos remete para aquele mundo único para o qual Pratt nos levava (baseado nas suas viagens reais pelo mundo); através das fotos de Marco D’anna e da descrição incrível através de textos de Marco Steiner acerca da China, Mongólia e Rússia que nos indicam os locais onde se passa esta obra e das sensações vividas pelo autor ao percorrê-los. Esta é uma das maravilhas desta edição que infelizmente não pode contar com os textos geniais de Gianfranco de Turris e de Guido Fuga assim como das aguarelas que Hugo Pratt fez em exclusivo para esta obra aquando da sua publicação na Meribérica.(clica nas imagens para ampliar)

Posso começar com uma das frases iniciais do livro proferidas pela personagem Boca Dourada a Corto Maltese:
“Quando um adulto entra no mundo das fábulas não pode sair dele.”
Poderia falar um pouco dos conflitos da altura com as tríades em Shanghai com as “Lanternas Vermelhas” (da qual fazia parte o personagem Shanghai-li) ou mesmo da loucura do Barão Ungern-Sternberg conhecido como “barão sanguinário” que em 1921 conquistou a Mongólia e tornou-se seu ditador através de uma monarquia independente, que era um homem de fé e crença nas religiões do Médio Oriente (particularmente ocorto maltese na siberiaBudismo) e que achava ser a reencarnação de Ghengis Khan ou mencionar ainda a luta do combatente Suke Bator (outra personagem histórica) contra a opressão do Barão, de Maria Semenova (personagem ficticia), de Jack Tippit (personagem ficticia) ou do general Chang (personagem histórica); mas penso que o fundamental é saber somente que a trama passa-se na Mongólia, na China e na Rússia com o transiberiano como “pano de fundo” e com o “nosso” Corto Maltese envolvido nas maiores intrigas da história no continente asiático e literalmente “perdido” no mundo da fábula onde o real e o imaginário por vezes se cruzam.

Lembro-me de quando o li ter achado o livro de banda desenhada com mais ritmo (e matéria histórica) que tinha lido até há altura (pensando hoje em dia da mesma forma), via as passagens de Corto Maltese por estes 3 países nunca fugazes, estando ele sempre embebido na cultura de cada país e no meio das suas guerras, o que me dava uma sensação ímpar de movimento que nunca li noutras aventuras deste marinheiro.

corto maltese na siberiaConsidero este álbum de banda desenhada uma obra-prima e no final do mesmo ficamos com uma sensação de “vazio” que não senti nas restantes aventuras deste personagem com a sua relação com Shangai-Li. Não pretendo com esta pequena introdução a este livro contar a trama do livro, mas sim que novos e velhos leitores o tentem ler ou reler como uma obra aparte de tudo o que foi feito no mundo da banda desenhada e esperando que tenham experiências e sensações com este livro no mínimo tão fortes como as que senti quando o li.
Poderia comparar esta edição a um excelente filme com algum rigor histórico e com um documentário inicial a falar-nos não do filme, mas sim das sensações obtidas que pudemos ter ao percorrer os locais onde o mesmo foi filmado.
Por último, penso que o traço de Pratt neste livro em concreto parece estar muito mais fluído e dinâmico (talvez dai a ideia inicial que tive de movimento) e não tão estático e denso como em obras anteriores.

Ligações desta obra com o cinema:

Duquesa Maria Semenova (Homenagem ao belíssimo filme “Shanghai Express” de Josef Von Sternberg com Marlene Dietrich no Transiberiano assim como a Duquesa)
Shangai-li (evocando novamente não o personagem, mas sim o nome pelo qual o personagem de Dietrich era conhecida no mesmo filme)

 

Curiosidades:

Shanghai-li cujas feições foram inspiradas na sobrinha de Tchang kai-Shek (pessoa que Hugo Pratt conheceu pessoalmente) que foi líder da República da China em 1928 e que perdeu a 2ª guerra sino-japonesa com o Japão em 1937,o que fez com que perdesse importância na China mas fez com que ganhasse simpatia externamente e fosse considerado o homem do ano em 1937. Tentou ainda durante a guerra civil chinesa (de 1926 a 1949) erradicar os comunistas chineses sem sucesso e continuou a governar a República da China a partir da Formosa, tendo em 1953 assinado um acordo de paz em Pan Munjon que fez aproximar a China da União Soviética e dos Estados Unidos dando alguma estabilidade ao seu país.

Outras edições (clica nas imagens para ampliar):

Inteiramente a preto e branco segundo a vontade do autor, mais tarde republicadas também em 2 volumes pelo público sem qualquer introdução a esta magnifica obra.

Edições 70:

Corto na Sibéria 1 - Edições 70
• Corto Maltese na Sibéria I – As Lanternas Vermelhas (Lisboa, Junho de 1982)
Corto na Sibéria 2 - Edições 70

• Corto Maltese na Sibéria II – Ungern da Mongólia (Lisboa, Junho de 1982)

Jornal Público:

Corto Maltese na Sibéria 1 - Público
• Corto Maltese na Sibéria (Vol1) – 8 Novembro 2004
Corto Maltese na Sibéria 2 - Público

• Corto Maltese na Sibéria (Vol2) – 15 Novembro 2004

Meribérica:

Corto Maltese na Sibéria Capa Dura - Meribérica Corto Maltese na Sibéria Capa Mole - Meribérica
• Corto Maltese na Sibéria (2001 (capa mole) 2003 (capa dura)

Que apresentava um prólogo de 22 páginas com textos de Gianfranco de Turris e Guido Fuga acerca da lenda que foram os personagem históricos Barão Ungern-Sternberg ou Suke Bator (criador da armada revolucionária Mongol) com fabulosas aquarelas originais de Hugo Pratt, assim como fotos dos personagens históricos que compoem esta trama.

corto maltese na siberia - DVDDVD (2002):

Corto maltese na sibéria DVD de Pascal Morelli que pensei que poderia adaptar fielmente o movimento de que escrevia anteriormente com a sensação que obtive ao ler o livro, mas que na práctica não mo conseguiu transmitir.

Manuel Espírito Santo