Entrevista: Maria Yashmin (Booktree)

Apresentamos hoje uma entrevista rara à editora Maria Yashmin, responsável pela chancela Booktree, bem conhecida dos leitores portugueses pelo catálogo em BD e livro infantil, bem como outras temáticas mais específicas. Volvidos cerca de dez anos da sua entrada no mercado, fazemos um rescaldo aos momentos da editora e sondamos o futuro.

CentralComics – Olá, Maria Yasmin. Antes de mais, obrigado por aceitar esta entrevista, em especial por saber que usualmente prefere evitá-las, por achar que “a função dos editores é publicar livros, não emitir opiniões.”

Eden 2.0Maria Yashmin – Tenho imenso gosto em estar presente no Central Comics (CC) cujo percurso há muito venho acompanhando, umas vezes mais de perto e outras com algum distanciamento, mas tendo sempre bem presente o enorme carinho, admiração e respeito por esta belíssima criação do Hugo e Nelson. O CC tem tido um percurso extremamente interessante desde a sua criação e, apesar de muitos dos seus leitores e visitantes dos dias de hoje talvez não se aperceberem (sobretudo os mais jovens), o facto é que, contra ventos e marés, o CC está cá e tem obra feita. Muita obra de grande qualidade; é de se lhe tirar o chapéu!
Gostaria de salientar que eu não evito as entrevistas, não é bem assim; simplesmente não as procuro para a minha própria pessoa (o que é totalmente diferente), pois acho que são as obras e os autores que deverão ser o alvo das atenções dos media, até porque é deles que os leitores querem saber. O editor é apenas um veículo, um mensageiro; quem deve ocupar o papel principal sob as luzes da ribalta é o autor e a sua obra.

CC – Como não sei que assunto abordar primeiro, proponho conduzir a conversa por uma ordem cronológica. Começo por perguntar sobre a génese da sua editora Booktree; faz agora dez anos que se deu o boom editorial no sector da banda desenhada em Portugal, que representou uma época fora do comum, em que chegou a sair (em 2005, segundo as estatísticas recolhidas pelo CC.com) uma média aproximada de 1 livro e ½ de BD/Cartoon por dia, o que consequentemente levou as livrarias a expandir as áreas de exposição reservadas ao género e fez aumentar os destaques nos periódicos. A seu ver, e olhando esse momento retrospectivamente, porque acha que se deu tal fenómeno?

Maria Yashmin – Penso que isso aconteceu seguramente porque na altura estariam reunidas as condições ideais para que esse pequeno “boomzinho” acontecesse (em Portugal, como somos mais pequenos, tudo se passa a uma escala mais pequenina, inclusivamente em termos de BD, sobretudo se olharmos por exemplo para França, Bélgica ou os E.U.A. – países em que a BD e os “comics” tiveram e têm, uma quota de mercado realmente considerável).
Relembro que, no mercado editorial, o tal “boom” não foi só na BD, houve diversos outros sectores do livro que também cresceram muito, como por exemplo a ficção, a literatura de um certo estilo, o infanto-juvenil, etc. Alguns desses sectores nos quais, aliás, a Booktree também se inseriu e para os quais ainda hoje continuamos a produzir, contrariamente ao que se passou com a BD, que infelizmente e por inúmeras razões foi ficando para trás. É o caso, nomeadamente, que se passa com o infanto-juvenil. Neste segmento, nos últimos anos, a Booktree tem vindo a construir, felizmente com grande sucesso, um catálogo considerável e do qual muito nos orgulhamos. Naturalmente que, sendo o CC e os seus seguidores mais orientados para o mundo da BD, evidentemente é para esse sector que olham mais atentamente.
Voltando à questão do tal “fenómeno” – na verdade não creio que tenha sido um fenómeno, isso foi tão-somente uma consequência do que na época se propiciava. Foi “fruto da época.” Ou seja, estavam reunidas as condições no mercado para que tal acontecesse: havia meios e recursos, havia “players” que facilmente se movimentavam nesse meio e, acima de tudo, havia mercado para acolher entusiasticamente esse “fenómeno.”

Jerôme MoucherotCC – Todavia, nesses anos, havia muitas (novas) editoras a publicar com frequência. Embora a grande Meribérica/Líber já estivesse cambaleante, após a falência da sua distribuidora, ainda tentava um último esforço para regressar às lides, mas com novas editoras a ocupar-lhe fatias do mercado; p.e. a VitaminaBD, em época áurea e consolidando o percurso que vinha a traçar gradualmente desde finais de 90’s; a Devir, igualmente no seu mais alto pico editorial, embora num segmento de BDs diferente; a Polvo e a Witloof, de menor porte mas com um excelente catálogo em construção; e depois o recém-criado departamento de BD da Edições Asa, sob leme da Maria José Pereira, e a Booktree, que também derivou das fileiras da Meribérica e depressa se lançou no campo dos títulos franco-belgas.
Muitos rumores falavam sobre a disputa pela tutela das propriedades-chave do catálogo da Meribérica (p.e. Astérix, Corto Maltese, Lucky Luke etc) nos primeiros tempos, mas qual era, de facto, a relação mantida entre estas editoras?

MY – Não creio que tenha havido qualquer “ocupação de fatias de mercado” por parte desta ou daquela editora. Cada uma das editoras referidas sabia muito bem quais as linhas orientadoras das suas publicações e em que águas navegava. Havia mercado para todos, tanto mais que cada editora sabia perfeitamente o seu rumo. Nada se passava ao acaso. Evidentemente, pelos outros não posso falar, mas naquilo que toca à Booktree posso afirmar que nunca nos sentimos de forma alguma ameaçados ou coagidos a adoptar esta ou aquela estratégia editorial em função de eventuais opções de outras editoras. Houve seguramente propostas que nos foram oferecidas e postas em cima da mesa, inclusivamente por parceiros internacionais com quem há muito já mantínhamos uma prolongada relação de amizade e trabalho, mesmo antes da editora ser criada, e que muito simplesmente ao serem analisadas e ponderadas, decidimos recusar porque achámos que não seriam uma mais-valia para os interesses da editora; outras houve que optámos por aceitar pois enquadravam-se dentro dos nossos objectivos. Uma vez mais, acho que nesta matéria, importa olhar para o “big picture”, ou seja, há que olhar para a situação de então sob um plano mais alargado. Não entendo o porquê desta questão em relação à BD. Será que a mesma questão colocar-se-ia se falássemos de outro género que não BD? Evidentemente que não. Julgo que a questão levanta-se/ levantou-se talvez na altura porque provavelmente o público estava habituado a que existisse apenas a Meribérica nesta área de publicações. Mas vendo o aspecto positivo da questão, ao haver de repente uma pluralidade no leque de escolhas, o mercado de oferta em matéria de BD cresceu e evidentemente quem teve a ganhar mais com isso foi o público, pois houve claramente um alargar de horizontes.

CC – E perante o boom editorial, havia crença do mercado chegar para todas as chancelas ou havia consciência de que, a médio prazo, algumas ficariam pelo caminho?

MordilloMY – Acho que quem cá anda neste mercado há alguns anos tem perfeita consciência de que nada é imutável e que as voltas e reviravoltas acontecem num piscar de olhos. São muitas as editoras que, por esta ou por aquela razão, ficaram pelo caminho e, outras há que, até por razões que se prendem com o seu histórico, se antevê que estando à beira do precipício, manifestam um delirante entusiasmo em dar mais um passo em frente. A História ensina-nos que não devemos tomar nada como certo, nem tão pouco termos nada por garantido.
De há uns anos para cá, a lógica de mercado foi-se tornando extremamente perniciosa e julgo que a maioria do público infelizmente nem sempre se apercebe disso. No circuito de comercialização, as grandes cadeias têm assumido cada vez mais um papel preponderante (com algumas honrosas excepções, muitas das quais não conseguiram sobreviver) e, aos poucos, têm imposto a sua lógica àquelas poucas e pequenas excepções do que ainda resta das chamadas livrarias tradicionais (já para nem falar das ditas “livrarias especializadas”). A tendência, quer queiramos, quer não, quer gostemos ou não, é para a massificação de um mercado focado quase exclusivamente nas novidades. Naturalmente, neste panorama, os títulos com uma circulação mais lenta ou com uma vertente mais dirigida para um público muito específico, como é o da BD, foram ficando para segundo plano. Foi-lhes sendo atribuído um espaço e atenção cada vez mais minoritários, tornando-se consequentemente uma espécie em vias de extinção. E o mais triste é que isto acontece sem que o editor, por si só, sozinho e isoladamente, consiga lutar contra tais consequências. E ainda mais triste é ver que esse “mainstream” vai-se auto-alimentando com uma constante sobreprodução de novos títulos que, infelizmente, não se traduzem por variedade e satisfação por parte do público. Antes pelo contrário, assiste-se a um confrangedor estreitamento no que toca à diversidade editorial. A isto, se somarmos os efeitos da “crise” e inevitáveis apertos financeiros, conduz a uma vertiginosa táctica de “fuga para a frente” que não parece augurar nada de bom, para muita gente, a muitíssimo curto prazo.

CC – Como sabemos, na altura, como agora, mercado não aguentou, e passados poucos anos começou a declinar. Muitas editoras capitularam ou limitaram-se a subsistir publicando só um punhado de títulos por ano, ou menos. E como consequência, ficou o estigma de que as editoras começavam séries ou ciclos de histórias que raramente eram concluídos – o que se tornou um tópico de discussão recorrente na altura.
Hoje em dia, muitos leitores tomam a precaução de não comprar o primeiro volume até haver os lançamentos seguintes e, actualmente, notamos que algumas das mais bem-sucedidas BDs são aquelas cujas sequelas surgem no espaço de um a 2 anos da estreia do tomo inicial. Porém, isto traz um paradoxo: como podem os editores apostar nos volumes seguintes e fazer maiores apostas, se as vendas dos primeiros volumes são fracas devido à expectativa dos leitores? Terão os aspectos de bastidores, como prazos adversos para co-edições internacionais, algo a ver com o assunto?

MY – Julgo que parte desta questão decorre do que disse atrás. Tudo isto funciona de forma interligada e, por ridículo que pareça, é mesmo uma pescadinha de rabo na boca. Evidentemente, nenhum editor que se preze tem qualquer prazer em deixar uma série a meio. Compreendo perfeitamente a frustração dos leitores que comprem um primeiro volume e que gostariam de continuar a série, até porque o próprio editor sentir-se-ia extremamente feliz se, à partida, quando escolheu e apostou em particular naquele determinado título, tivesse garantido o seu sucesso junto do público por forma a que a continuação da mesma estivesse desde logo assegurada. Mas na realidade, no mundo real não é assim que isso se processa. É com tristeza que vemos isso acontecer com excelentes séries publicadas por nós e por outras editoras. Os factores com que o editor tem de jogar são muitos e muito complexos, e estão para além do mero gosto e interesse pessoal pela obra. Gostar e querer, infelizmente, nem sempre bastam.

CC – Mudando ligeiramente o assunto, numa segunda fase a Booktree passou a focar-se mais em obras de tira cómica e cartoon. A que se deveu essa nova orientação de catálogo?

GarfieldMY – Sempre fizemos os livros de “comic strips” e cartoon de humor. O meu próprio percurso profissional, durante vários anos e muito antes de estar nos livros, já era precisamente na área de “licensing & merchandising” (licenciamento de produtos e bens) de personagens, muitas delas bem queridas e conhecidas do público português: Garfield, Pantera Cor de Rosa, Star Wars, Transformers, heróis Marvel, Os Flintstones, Snoopy, Simpsons, Astérix, etc. Evidentemente que, ao enveredar pelo mundo da edição, todo esse mundo de referências e “know how” transitou comigo de forma quase intuitiva. Não foi portanto uma nova orientação de catálogo, foi antes uma outra “fatia” da nossa produção editorial que provavelmente foi conquistando, de forma muito natural, um maior destaque junto do público que desde sempre lhe fora fiel. E em paralelo, já vínhamos também fazendo outro tipo de livros, tanto virados para o público infanto-juvenil (livros pré-escolares para os mais pequeninos, livros de histórias, livros de jogos e passatempos, etc.), bem como uma outra área em que a Booktree foi pioneira: as biografias de desporto, mais precisamente os livros ligados ao futebol. Tudo isso já fazia parte do nosso catálogo e funcionavam todos em simultâneo. A edição de leitura generalista é precisamente isso, nunca funcionámos única e exclusivamente para o mercado de BD, tivemos sempre um leque diversificado no que toca ao género de publicações.

CC – Nem a propósito, outro momento fulcral no percurso da editora foi a separação com um sócio, que criou depois a chancela PrimeBooks e, entre outros, começou a explorar o mercado de cartoons/caricaturas ligados ao desporto. Com a distância e perspectiva que o tempo permite, pode esclarecer-nos o que aconteceu?

MY – Convenhamos que a expressão “momento fulcral no percurso da editora” tem uma solenidade de tragédia grega que me faz sorrir. O que se passou foi o que é normal em tantas empresas (não só editoras): as pessoas, a dado momento do seu percurso profissional, ou até nas suas vidas pessoais, enveredam por novos trilhos, buscam outros rumos, estabelecem-se outras metas e objectivos. E ainda bem que assim é; há que manter uma dinâmica própria e cada um tem de a buscar dentro de si próprio, e as empresas quem as faz são as pessoas, são elas que contam. Para quaisquer questões sobre os títulos da Prime Books, com quem aliás sempre mantivemos uma óptima relação, sugiro que contactem directamente a editora.

CC – Ao contrário de colegas seus, a Maria não tem o hábito intervir activamente em eventos da especialidade, seja participando na programação destes ou meramente marcando presença com os seus títulos. Porquê?

MY – Sem querer parecer pessimista, convenhamos que infelizmente não há assim tantos “eventos da especialidade” como isso. Partindo do princípio que se referem a eventos abertos ao público (contrariamente a feiras e salões do mundo da edição, mas que são dirigidos apenas a profissionais) e que, pouco a pouco, têm vindo a perder massa crítica e sendo consequentemente relegados para uma franja do sector em que, visto também estarmos com um número de publicações de BD “pura e dura” mais diminuto, se calhar também não faz sentido marcarmos presença, pois isso seria algo incoerente da nossa parte.

CC – Perante um mercado cada vez mais diminuto, em que não faltam só maiores promoções à BD e Cartoon, mas faltam também leitores, a Booktree esteve alguns anos sem publicar novidades. Regressou agora com dois novos livros do clássico Garfield, lançados simultaneamente. Porquê voltar ao sector este ano, especialmente quando o estado de crise se acentua?

MY – Não creio que faltem leitores. Há leitores, mas o que falta é dinheiro para os leitores conseguirem comprar todos os livros que desejariam. Leitores que antes compravam 3 ou 4 livros duma assentada, agora hesitam antes de comprar um só livro, o que é perfeitamente compreensível dadas as circunstâncias difíceis que vivemos actualmente. Tal como mencionei anteriormente, a Booktree tem publicado nos últimos anos várias novidades, mas noutros géneros que não BD.
Como diz e bem, Garfield é um clássico. Repare bem que são mais de 130 milhões de livros vendidos no mundo todo, com mais de 3 milhões de seguidores no facebook e cerca de 50 mil visitas diárias no site oficial. Não há como resistir ao gato! Achamos que era precisamente numa altura em que está tudo muito “cinzentão” que era chegado o momento ideal de lançarmos uma dose dupla de humor felino que só o Garfield sabe ter. Sorrir felizmente ainda não paga nenhum imposto e sempre funciona como antidepressivo – isto acaba por ser uma óptima mensagem de humor e boa disposiçãoque passa muito bem para o público.

MordilloCC – Que planos editoriais tem até ao final de 2012?

MY – Lançámos também recentemente um outro livro com o Garfield e que se tem vindo a revelar um verdadeiro sucesso (logo pelo título dá para perceber o porquê), chama-se Garfield: A Crise – Manual de Sobrevivência . É de um estilo muito diferente dos “comic strips”, trata-se de um guia prático cheio de bons conselhos e dicas de poupança muito simples, acessíveis a qualquer um, ideais para miúdos e também graúdos.
E está também já disponível no mercado um outro livro, intitulado Miminhos para a Mãe, desta vez uma antologia de poemas e textos dedicados à figura da Mãe (nada tem de BD nem cartoon), que foi desenvolvido a pensar especificamente no Dia da Mãe que se avizinha, mas que na verdade é um livro intemporal e que funciona bem em qualquer altura.
Teremos ainda, brevemente, um novo livro do Mordillo, o grande mestre argentino do cartoon, que comemora este ano o 80º aniversário (sempre a trabalhar e a produzir) e que nos brinda com mais uma obra dedicada ao Amor, desta vez de uma forma muito original e inédita: o Amor: Regras de Ouro. É este o título que em breve estará disponível, em primeiríssima mão, para os fãs portugueses.

CC – Obrigado pela atenção e por responder às nossas perguntas. E votos de contínuas boas edições.

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