Loja O Lobo Mau emite comunicado

A loja especializada em merchandise e banda desenhada vai fechar na sua componente física no final deste ano. Nesse sentido, emitiu um comunicado, aqui apresentado.

“É com um misto de emoções que emitimos hoje este comunicado acerca de um projecto pessoal e profissional que nos tem acompanhado desde há vários anos, e que se traduz actualmente pela loja física O Lobo Mau, no Porto.

A decisão que tomamos, apesar de bastante espontânea, não é, de todo, irreflectida.
Iremos encerrar o nosso espaço físico, na cidade do Porto, e manter apenas a loja virtual, O Lobo Mau, com efeito a partir de 29 de Dezembro de 2011.

Deve-se esta decisão não apenas à actual conjuntura económica adversa, mas também à nossa incapacidade para conciliar o nosso horário normal de atendimento ao público com o tempo de que necessitamos despender em todas as nossas outras actividades profissionais, a que nos temos sempre dedicado, mas que assumem agora uma maior relevância.
Como é do conhecimento de quem connosco convive mais de perto, bem como dos nossos clientes, desenvolvemos, paralelamente à actividade comercial, outros trabalhos.

Somos ambos designers, temos projectos ocasionais em regime de freelance e temos também, a par de trabalhos mais esporádicos, outros que é necessário levar a cabo permanentemente ou sazonalmente, sendo que 2012 se está a projectar como bastante significativo no nosso panorama profissional.

Para além da nossa maior motivação, neste momento, residir precisamente nestes projectos profissionais, vamos também, a título pessoal, levar a cabo outros empreendimentos que nos manterão afastados da cidade do Porto.

Temos algumas declarações adicionais a acrescentar a este nosso comunicado.

Julgamos ser esta a altura propícia para informar os nossos clientes e amigos de que tem vindo a ser cada vez mais difícil trabalhar com loja aberta ao público. Não só o espaço físico que escolhemos para a nossa loja (apesar de inicialmente nos parecer bastante viável) é portador de inúmeros defeitos, como temos tido bastante dificuldade para conseguir estar fisicamente presentes na loja durante o seu horário de funcionamento, seis dias por semana. Além disto, os muitos gastos que a própria loja acarreta são apenas dificilmente comportados pelos seus próprios meios.

Sendo a loja O Lobo Mau uma consequência de quase 4 anos da loja Central Comics, contamos já com quase 6 anos de loja (física) aberta. Quando a abrimos, a 1 de Abril de 2006, já eram conhecidos os rumores da “crise”, mas estávamos convictos de que a cidade do Porto tinha mercado para nós. E, de facto, até Novembro de 2008 mantivemo-nos em evidente e significativo crescimento.

A partir desse mês, o bombardeamento de notícias relacionadas com o estado da nação tomariam grande parte dos noticiários de horário nobre, fazendo cair o receio um pouco por todo o público. Tanto o cliente ocasional como também o consumidor de banda desenhada e merchandise se terão ressentido, e começámos a notar uma quebra do nível de vendas, que se traduziu em cerca de 30% num par de meses.

A situação foi-se deteriorando até meados de 2010, quando resolvemos fechar a Central Comics. Considerámos efectivamente encerrar a loja física, mas por gosto e vocação acabámos por abrir a O Lobo Mau, se bem que sendo esta mais direccionada à venda e exposição de merchandise, por oposição à banda desenhada (que havia constituído até aí o forte do nosso investimento e vendas). A ideia revelou-se boa, estrategicamente, e conseguimos que assim se mantivesse durante algum tempo – vendíamos bem e gostávamos do que fazíamos.

Passados 16 meses da abertura da loja O Lobo Mau, e talvez por todas as medidas de austeridade impostas a todos os cidadãos, notámos um significativo decréscimo nas vendas, sendo que os valores que obtivemos no passado mês de Novembro foram simplesmente ridículos. Dezembro não se está a prever muito melhor. Neste momento, e se outros factores não existissem, já não faria, de qualquer forma, sentido mantermos uma loja que nos consome tantas horas semanais para apenas se pagar a ela própria. Julgamos mesmo que a situação actual, a manter-se por mais algum tempo (e se estivéssemos profissionalmente dependentes apenas desta loja) se tornaria insustentável como rendimento de uma família.
E com o aparecimento de novos projectos para 2012 chegou assim a altura de dizer “basta”.

Durante estes anos no mercado temos visto várias lojas do meio a “cair”. Algumas com boa atitude, outras disparando contra tudo e todos e outras com o tradicional disfarce: “vamos de férias”. Já somos menos de 10 lojas em todo o país e acreditamos que a situação não se ficará por aqui. Talvez persistam as mais fortes, mais antigas, ou mesmo aquelas cujos donos tenham outras fontes de rendimento e investimento.

Além da crise que assola o país e as famílias portuguesas, temos também de tomar em conta a concorrência virtual que surgiu nos últimos anos. Com as lojas de BD nacionais a viverem quase exclusivamente da importação de livros, devido à pouca quantidade de banda desenhada traduzida, tudo se complicou quando as cadeias internacionais de venda on-line de livros com preços baixos (preços que seriam incomportáveis para qualquer loja portuguesa) se tornaram populares. Impossibilitadas de combater estes colossos mundiais, as lojas de banda desenhada sentem cada vez mais dificuldade para sobreviver.
Com a falta de recursos, muita gente (nomeadamente jovens) recorre à pirataria digital para ter acesso às suas leituras favoritas sem ter de gastar dinheiro, como já tivemos oportunidade de constatar através dos nossos próprios clientes. Mesmo falando das leituras pagas e lícitas, a banda desenhada digital tem ganho terreno à impressa em papel.

Aproveitamos para relembrar os problemas que tivemos quando, ainda como Central Comics, nos deparámos na loja com milhares de euros de encomendas não levantadas por clientes que não honraram os seus compromissos, o que, para uma loja pequena, foi crucial.
Tivemos também problemas com fornecedores que trabalharam muito mal, com prejuízo nosso. Por duas vezes vimos grandes carregamentos de encomendas perdidos, prejudicando colecções de clientes, e, consequentemente, a confiança destes para connosco. Tudo isto contribuiu para nos direccionar para situações difíceis, às quais fomos, ainda assim, resistindo.

Gostaríamos, também, de apontar a forma como os retalhistas demonstram tamanha oposição à união. Pelo contrário, vivemos num mercado fechado e mesquinho, onde cada um está sozinho contra o mundo. Em nichos do mercado, onde deveria haver união e luta no mesmo sentido, existe a intriga, a inveja e os golpes-baixos. Desde que entrámos neste universo que temos lido e ouvido as mais absurdas e deprimente histórias.
Lojas que nascem ou crescem com trapaças, dívidas e golpes sujos; lojas e empresas que se aproveitam do trabalho dos outros de forma menos clara, como, por exemplo, através dos “contra-eventos” fabricados à pressão (eventos ou promoções criados “em cima do joelho”, por forma a tentar sabotar outros eventos organizados e agendados há mais tempo, com o intuito de se aproveitaram da movimentação de fãs, numa tentativa absurda e abusiva de auto-promoção), como nós sofremos inúmeras vezes, principalmente desde que começámos a organizar festivais para a comunidade de manga/anime.
Há ainda lugar para o egocentrismo, a vaidade, e o mascarar com uma visão bonita o lugar tortuoso pelo qual todos passamos.

Curiosamente, nestes 6 anos, recebemos inúmeros pedidos de franchise em cidades impensáveis (algumas com pouco mais de 25 mil habitantes), e ainda 3 propostas de “compra” por outras empresas. Havia boas ideias e boa vontade envolvidas, quer se tenha tratado de ideias para manter o nosso nome ou expandir outros nomes já conhecidos que ainda não tivessem visibilidade na cidade do Porto.
Nos 3 casos, o negócio não se concretizou devido ao esmorecimento da vontade dos “compradores”. Sublinhamos que, em todas as situações, fomos nós os abordados com esse interesse, e não o contrario. Fomos também, ainda, bastante prejudicados com alguns destes “pré-arranjos”. Ainda hoje acreditamos que, se pelo menos dois dos três cenários se concretizassem, o fruto dessa união resultaria, em médio prazo, num domínio evidente do mercado em Portugal. Infelizmente as coisas não correram pelo melhor, e não foi pela nossa falta de vontade.

O ano de 2012 não promete ser muito positivo em termos de mercado, por todos os factores já aqui mencionados, mas estamos com esperança, ainda assim, para o trabalho que continuaremos a levar a cabo. Voltamos às raízes. O Lobo Mau vai ser uma loja apenas virtual, como a Central Comics foi durante mais de 3 anos. Mas não nos iremos eclipsar. Está nos nossos planos participar com espaços comerciais em eventos de grande e média envergadura, e continuar a criar eventos no distrito do Porto – e, quem sabe, alargar estes a outras regiões.
Iremos tornar as condições de compra mais apetecíveis para o público. Mais campanhas promocionais, a diminuição do valor mínimo de encomenda para oferta de portes, valores mais baixos para gastos de envio. Iremos colocar ao vosso dispor mais variedade de produtos, mais celeridade nas respostas e maior rapidez no processamento e envio das encomendas. Mais e melhor informação, nos boletins, website e Facebook.

Queremos ainda dizer que as encomendas que não chegarem até final do ano e que iriam ser levantadas na loja, irão ser mantidas e enviadas por correio, sem custos adicionais para os clientes. Iremos tratar de cada caso individualmente, e garantiremos que todos serão avisados atempadamente, durante este mês, sobre o estado das suas encomendas.
Os clientes nestas situações serão todos contactados pessoalmente, assim como todos os clientes de assinaturas via Previews.

Queremos por fim agradecer a todos vós, clientes, amigos, colaboradores, editores, artistas – os que tornaram este sonho pessoal e projecto possível por tanto tempo, em tempos tão conturbados.

Aos clientes e amigos que nos apoiaram nos bons e maus momentos e a todos os colaboradores que estiveram ao nosso lado, o nosso grande agradecimento.

Vemo-nos na World Wide Web… e nos eventos!

Até sempre,
Hugo Jesus e Andreia Lopes
O Lobo Mau”