1º AMADORA BD

fibdaVinte anos e aquele que prometia ser um grande salto em frente foi na verdade um retrocesso de um festival que estava a apresentar uma boa evolução. Com a mudança de nome e visual, o 1º Amadora BD revelou-se uma boa surpresa. Como 20ª FIBDA, só posso dizer que a organização fez jus ao nome da cidade…

1º AMADORA BD

Tendo visitado o primeiro fim-de-semana do festival, para a comemoração dos 20 anos de festival as minhas expectativas estavam altas mas talvez um pouco altas de mais. Devo ter-me habituado à constante melhoria do mesmo nesta localização.

Assisti pela primeira vez à inauguração de sexta-feira. Há que dizer que este deve ser dos pontos altos do festival pois estava repleto de gente para assistir ao fogo-de-artifício (vá lá que dispensavam-se os restos do fogo-de-artifício a choverem em cima do público).
Foi engraçado de ver a mistura de gente durante a noite. Os gunas da Amadora atrás das mesas de cocktail, os autores estrangeiros a circularem cruzando-se com as caras habituais dos festivais nacionais não faltando a comitiva camarária da praxe, tudo regado com uma banda sonora ao vivo que me pareceu um pouco desenquadrada. Grande interesse dos autores estrangeiros na mostra dos vencedores do concurso de BD do festival, onde até o Cebulski reconheceu um antigo Ricardo Tércio entre os muitos expostos, e espanto geral nos desenhos de grande artistas internacionais dedicados ao festival naquele que foi de longe o dia mais concorrido daquele fim-de-semana.

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Sábado
Antes dos autógrafos, aproveitei para ver as exposições que no dia anterior tinha visto rapidamente. Já muito foi dito, por isso só destacarei algumas exposições como a do Rui Lacas que primou por um belo ambiente enquadrado com a obra. Já é habitual o premiado da edição anterior ter direito a uma exposição mais cuidada mas não me lembro de uma qualidade destas desde o Salazar, Na Hora da Sua Morte.
A colectiva polaca foi das melhores surpresas deste ano apresentando uma série de espantosos artistas confirmando que existem grandes talentos fora dos mercados habituais e que se torna imperativo dar a conhecer ao mundo.
Astérix destacou-se pela negativa fazendo lembrar a tremenda desilusão que foi a exposição Star Wars na última edição do festival, centrando-se mais no que era ‘acessório’ do que aquilo que todos esperavam. Da mesma maneira a exposição Mangá do Oriente e do Ocidente foi algo pobre e diria que foi para a mangá marcar presença.
A exposição dos 50 anos de carreira do Maurício de Sousa sobressaiu pela variedade de pranchas expostas além do gigantesco Sanção que fazia as delícias de miúdos e graúdos.
Finalmente a exposição da Planeta Tangerina foi a mais genial de todas em termos de cenário. Foi o mais bem conseguida de todas, apostando numa interactividade com o visitante que tinha que abrir as várias gavetas para apreciar a arte exposta.

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A exposição FIBDA: XX anos foi para mim e de longe a mais interessante. Tal como fez as delícias dos autores norte-americanos, eu também adorei ver aquela máquina do tempo formada por fotografias, desenhos e objectos de outras edições do festival onde se salienta a grande colecção de originais do CNBDI. Colecção que devia ser mais divulgada, exposta e partilhada com o público. Grandes nomes e excelentes desenhos!

Chegada a hora, o espaço comercial, autógrafos e conferências revelaram-se um verdadeiro sufoco. Reduzidas a dimensões liliputianas, com pouca ventilação, o ambiente era claustrofóbico e encontravam-se obstáculos por todo o lado (as colunas, o ‘eléctrico da saudade’, as mesas que já de si eram poucas para a procura ocupavam muito do pouco disponível). Voltando à disposição de há dois anos atrás, o espaço para autógrafos estava melhor distribuído mas sem qualquer iluminação. Com algumas das filas tão demoradas, nem era possível ler para matar o tempo.
Mas isto não impediu uma grande afluência que não esmoreceu até ao fim do dia. Os autores estrangeiros esmeraram-se nos desenhos contribuindo para filas grandes mas os portugueses predominaram com especial destaque para Ricardo Cabral que teve uma fila só comparável à do Lepage no dia seguinte e a ‘miudagem da Marvel’ que foi um sucesso obrigando o Cebulski a permanecer bastante tempo a assinar e rever os portefólios que muitos artistas tentaram dar ao editor e caça-talentos mas sem sucesso (justiça para todos, o caça-talentos não levava o portefólio de ninguém porque ia a muitos festivais tendo que carregar com eles e chegaria a uma altura em que não poderia aceitar mais).

Domingo
E que surpresa foi a fila para Emmanuel Lepage. Uma hora antes da hora marcada para os autógrafos e a fila já tinha encerrado. Felizmente que os desenhos eram rápidos o que permitiu a mais pessoas terem um desenho deste virtuoso artista. A sua exposição foi unanimemente um dos pontos altos dos vários artistas expostos apenas falhando na má iluminação que impedia a plena apreciação das pranchas.

Já os artistas canadianos faziam esperar e desesperar quem estava na fila. Mas se neste dia perdi três horas em duas filas, essa espera compensou largamente graças ao extremo detalhe e dedicação que estes autores dedicavam a cada pedido e também à sua amabilidade e boa disposição que distribuíam nas conversas e assinaturas.

Isto sem falar da grande variedade de conferências e apresentações de novos livros. Muito nos queixamos mas o mercado ainda mexe com algumas editoras a apostarem, felizmente cada vez mais, nos autores nacionais.
Poderia dizer que falhei quase todas por distracção mas quando não existe um programa impresso durante o fim-de-semana inteiro além de que não se ouvia anúncio algum no espaço para os autógrafos (não se ouvia nada a não ser o mesmo CD da Rádio Comercial, “a mesma música a toda a hora”), como é que poderia estar atento? Aparentemente também houve um concerto de Noiserv durante a tarde de sábado. Fica a sugestão de transmitirem em directo os concertos e conferências pelo menos na área comercial e de autógrafos tanto para entreter quem espera como para aqueles que optam pelos autógrafos e gostariam de estar presentes nas apresentações e conferências.

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20º FIBDA

As más surpresas começaram semanas antes da abertura do mesmo. Se por um lado muitas das sugestões apontadas no tópico “A Crise da BD em Portugal” tinham sido bem seguidas, por outro lado certas opções e atitudes continuam a ser um mistério apesar de vinte anos de (suposta) experiência.

Começando pela confirmação de nomes e anúncio do cartaz, finalmente, graças ao Twitter e fiando-nos na pessoa que escreve, foi possível ter uma confirmação do que já há muito se vinha a falar que é o facto da organização contactar autores 3 meses antes do festival.

“Just got a letter from the Mayor of the city of Amadora in Portugal. Events are afoot!11:35 PM Aug 3rd from TweetDeck”

“The dates are set and my tickets are booked…ChesterQuest 2009: Europe is a go! Info, dates and details to be announced soon!3:00 PM Aug 19th from TweetDeck”

“The 3 cons ChesterQuest Europe will revolve around are FACTS in Belgium, Amadora Comics Fest in Portugal & Lucca Comics & Games in Italy.6:53 AM Aug 20th from TweetDeck”

Como todos devem saber, quando se fala em marcar viagens que implicam vários dias, os artistas internacionais precisam das viagens marcadas com muitos meses de antecedência (em alguns casos, anos!). Este tipo de convites em cima do joelho só pode acabar mal e reflectir-se no cartaz final de tal maneira que com o festival a decorrer ainda se vão anunciando mais nomes.
Isto reflecte-se na revelação tardia do cartaz. Tantas vezes criticada esta opção, ainda hoje espero uma explicação lógica que só traz desvantagens no meu ponto de vista:
As lojas ficam sem tempo para encomendar livros o que leva a ter autores com poucos ou nenhuns livros à venda. Podem argumentar que as lojas/editoras que trazem autores saem prejudicadas e eu respondo que deviam anunciar todos os nomes com antecedência excepto estes que ficariam para mais perto da data precisamente para protegerem esse investimento (só para dar um exemplo de possível consenso).
O mediatismo (in)existente sofre com este anúncio. Se o anúncio com muita antecedência dilui a atenção que os autores criam, 3 semanas ou 3 dias antes é a mesma coisa. Não há tempo para criar hype ficando as notícias sob a responsabilidade do núcleo duro bedéfilo (blogs e sites especializados). E isto para não falar de nomes confirmados enquanto o festival decorre (Mathias Lheman, François Schuiten)! Não vejo isto a acontecer com festivais de cinema ou de música onde metem a martelo outros nomes enquanto decorre o evento. Só leva ao agravamento das situações atrás indicadas para as lojas e media.
Inexistência de informação acerca dos autores. “Google é o vosso amigo” dirá muito provavelmente a organização. N festivais pelo mundo fora anunciam nomes com meses de antecedência fornecendo muita informação incluindo biobibliografias dos autores (bendito Vinetãs que me trazes dores de cabeça mas pelo menos neste ponto dás muitas cartas) enquanto o site do festival se torna completamente irrelevante não fornecendo qualquer informação enquanto o festival não começa…

E que dizer dos autores nacionais? A situação caricata que ocorreu no tópico XX FIBDA Já se conhecem (alguns) autores que vêem? mostrou o que eles aparentam ser para o festival e o que eles realmente são.
Apesar da tão famigerada importância dos portugueses para a organização, a discussão revelou-se uma “fuga para a frente” que culminou com o desterro dos nomes nacionais para o “fim da fila”, isto é, anunciados 5 dias antes da abertura, situação incompreensível ainda para mais quando são os mais fáceis de confirmar presença e de se deslocarem. Para quem esteve lá, na sua grande maioria, o tamanho das filas para os autores nacionais esteve taco a taco com os estrangeiros não se justificando a diferença de tratamento. Se por um lado se justificam com a prioridade que o público em geral dá aos estrangeiros (é um facto, não há como escapar pois a vinda de um estrangeiro é muito mais rara do que um nacional que se apanha em qualquer evento bedéfilo) por outro o número de pessoas nas filas só vem confirmar que o público quer tanto os nacionais como os estrangeiros.

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Claro que depois disto não poderia deixar passar o arcaico modelo dos Prémios Nacionais. Muito já foi dito em muitos blogs e outros sites mas aquele que penso que acerta na muche é o Notas Bedéfilas.
Em 2006 quando o álbum Merci, Patron do Rui Lacas foi publicado em França, o mundo bedéfilo nacional rejubilou com a chapada de luva branca que as editoras levaram com a prova de que não são necessárias para um autor conseguir ser publicado no estrangeiro. O álbum foi premiado com o Melhor Álbum Estrangeiro e editado em português. Três anos volvidos e após diversos autores terem sido publicados num dos mais difíceis mercados de BD, não há qualquer tipo de nomeação, prémio, exposição ou qualquer tipo de reconhecimento que não um convite para os autógrafos. Terá sido a vinda do Cebulski que os fez subitamente aperceberem-se destes artistas? Pena que José Carlos Fernandes e João Mascarenhas não tenham sido nomeados ou ainda que os vários artistas referidos aqui, entre outros, não tenham a atenção devida ano após ano!

Na Pública, revista que vem com o jornal Público aos domingos, o festival recebeu o selo O Pior de Tudo na semana do anúncio do cartaz. Posso não concordar com a justificação para a atribuição do selo mas aplaudo a atribuição. A minha crítica só seria menos extensa se não estivéssemos a falar de duas décadas de experiência! Fazer uma lista do que há para ser melhorado é bom para um festival a começar ou que tenha uns cinco anos de existência. Já vinte anos tornam indesculpáveis erros tão básicos, comparáveis ao nome da cidade.

Mas críticas à parte, esta é a maior festa da BD em Portugal e esperemos que dure outros vinte, quarenta, oitenta anos, que cresça e se afirme, se profissionalize e agrade a todos dentro do possível.

Por Diogo Campos